Para quem já foi sacristão, chegar a representar a voz de Deus é, no mínimo, estar bem nas hostes celestes. Para o ator londrinense Emílio Pitta, radicado em Curitiba há mais de 40 anos, dar vida no palco, TV e cinema a um rosário inteiro de personagens religiosos faz parte da mesma profissão de fé: a dramaturgia.
Na microssérie global ''Capitu'', dirigida por Luiz Fernando Carvalho, baseada na obra de Machado de Assis, o londrinense mais uma vez vestiu a batina. Apesar de sempre ser lembrado por suas interpretações de padres, Pitta diz que em 23 trabalhos na emissora viveu somente cinco religiosos.
São 38 filmes na carreira, entre os quais, ''Os Normais'' (2003), com direção de José Alvarenga Jr. Novelas, ele teve participações em várias, como ''Belíssima'', ''Porto dos Milagres'', ''Pé na Jaca'', ''Malhação'' e, mais recentemente, ''Beleza Pura'', como o professor Antunes.
''Fiz de sacristão à voz de Deus numa historinha para crianças. Porém, já interpretei médico, engenheiro, juiz e militar. A oportunidade para interpretar o padre de 'Capitu' surgiu a partir de um convite do produtor Nelson Fonseca, que não me conhecia mas viu o meu trabalho em 'Beleza Pura' e me chamou para fazer um teste. O Nelson disse: 'Acho que você ficará bem no papel, já que tem esse arzinho santificado'. A produção queria um Padre Cabral típico daqueles glutões. Fiquei com o papel, apesar de não ter essas características'', conta Pitta.
O ator ressalta que o diretor da microssérie deu bastante liberdade de criação ao elenco e que, durante cinco meses de gravação, ficou entre Curitiba e Rio de Janeiro. ''Curitiba tem essa característica. As pessoas chegam aqui e continuam sendo estrangeiras. Sou estrangeiro aqui há 40 anos'', comenta o ator, que dificilmente é identificado como um ator da cidade. ''Curitiba é meio um sino que não tem badalo. As coisas são feitas e não repercutem. Foram realizadas grandes montagens teatrais na cidade, que não vi sendo apresentadas no Rio de Janeiro ou São Paulo'', afirma.
Pitta, que se considera um aldeão londrinense, ainda mantém ligação com a cidade onde começou a atuar. Pioneiro da televisão londrinense, o ator lembra que estreou um programa transmitido ao vivo, em 1965.
Em 1967, Pitta decide mudar para Curitiba, onde faz parte do Teatro de Comédia do Paraná (TCP), período em que entrou em contato com os grandes nomes do teatro, como Cacilda Becker, um mito dos palcos.
Transitando da comédia ao drama, ele diz que a longa trajetória na dramaturgia é reservada aos que conseguem buscar novas proposições na carreira.
''O profissional que não tem conteúdo não pára em pé em cima do palco'', destaca, acrescentando que há 13 anos realiza um espetáculo didático de grande sucesso.
''Porém, as minhas ladeiras teatrais são mais íngremes. A gente está sempre se redescobrindo, com novas técnicas, tecnologias. A mais alta tecnologia é somente um sintoma da capacidade humana. Teatro é estabelecer uma comunicação com o público. O público é o objetivo do teatro. Quem está na profissão está a serviço e não ao bel-prazer. O artista tem que ser servidor, como alguém que bate o tambor numa festa, faz o vinho. A arte está em fazer bem aquilo que se faz. Aí está a grande recompensa'', afirma Pitta.

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