Enquanto fala sobre o seu novo trabalho, ''Ciranda Mourisca'', Alceu Valença se distrai e se encanta ao ver, de sua rede azul, na sacada de sua casa, em Olinda (PE), um beija-flor cumprir seu papel. A cena parece remeter a ''Pétalas'', faixa de abertura do CD -única em que ele divide a autoria, com Hebert Azul: ''... e o beija-flor beijando as flores a granel...''.
Segundo Alceu, a poesia, marcante no disco, é inerente à sua música. ''Antes de começar a fazer música, eu fazia poesias, que eram publicadas em jornais da época'', diz. Entre suas influências estão Carlos Drummond de Andrade, Carlos Pena Filho, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Vinicius de Moraes, cordel, frevo e maracatu. A partir de um convite da gravadora para fazer um CD apenas com cirandas, ele decidiu pinçar - com a ajuda da mulher, Yanê Montenegro - do repertório de seus 35 anos de carreira músicas que tivessem a ver a ver com a poesia e o toque da ciranda. Partiu de ''Ciranda da Rosa Vermelha'', registrada por Elba Ramalho no disco ''Baioque'', de 1997, e que ele nunca havia gravado. Antes de interpretá-la, o pernambucano de São Bento do Una fez algumas alterações na letra para que fizesse sentido ao ser cantada por um homem. Em meio à produção do álbum, decidiu expressar a influência da cultura dos mouros na arte do Nordeste, daí o título ''Ciranda Mourisca''. ''Foi tranquilo e ao mesmo ''agônico' fazer este álbum. Teve um dia que eu passei 20 horas dentro do estúdio, à base de barras de cereais'', diz.
Com o disco concluído, o cantor se prepara para estrear como cineasta. Alceu deve começar a filmar ''Cordel Virtual - o Segredo da Luneta Mágica'', cujo roteiro foi escrito por ele em 2000, inicialmente para um romance. Para dirigir o filme, cujos diálogos serão em versos, Alceu conta que fez aulas com uma amiga. Com elementos autobiográficos, o filme contará a história de um diretor de cinema que regressa a São Bento do Una. ''Será um musical, uma ópera popular'', adianta.

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