Essa é uma história que envolve Richard Nixon, a Casa Branca e cassetes de conteúdo bombástico. Não, esta não é a crônica do escândalo Watergate, no qual fitas gravadas na sede do governo americano levaram o então presidente Nixon a renunciar.
O escândalo aqui é outro. Em abril de 1969, Edward Kennedy Ellington, o Duke Ellington, completou seus 70 anos. Já consagrado como ''O Homem'' do gênero musical chamado de jazz, ele foi convidado por Nixon, em seus primeiros meses de Presidência, para receber uma homenagem.
Filho de um mordomo da Casa Branca, o compositor vestiu seu smoking e entrou pela porta da frente do palácio presidencial, desta vez para receber: um concerto com os maiores nomes do jazz tocando suas composições, um jantar de lagosta e champanhe para 80 convidados seus e a mais alta distinção norte-americana, a Medalha da Liberdade.
E onde está o escândalo? Precisamente no fato de que as gravações dessa noitada ímpar na história jazzística nunca foram ouvidas pelos milhões de súditos da Casa Branca. Nunca haviam sido.
Mais de 33 anos depois, a música saiu do palácio. A Blue Note está lançando nos Estados Unidos o CD ''1969 All-Star White House Tribute to Duke Ellington''.
O ''All-Star'' em questão não é nada desprezível. Estrelas houve de monte nessa gravação.
Duke Ellington não tocou o piano Steinway (só dedilhou os 3 minutos que encerram o CD), mas de sua mesa ouviu um elenco que incluiu o saxofonista Gerry Mulligan, o trombonista J. J. Johnson, o guitarrista Jim Hall, o pianista Dave Brubeck, o baixista Milt Hinton e mais uma boa dezena de sumidades jazzísticas tocando alguns de seus muitos standards (que, enfileirados, fariam fácil uma Rio-Santos).
A noitada deste 29 de abril começou cedo e terminou apenas às 2h45, mas o grande improviso não veio da área musical: foram os quatro beijos que Duke deu nas generosas bochechas de Nixon.
O resultado no CD são 75 minutos clássicos. Sem grandes arroubos criativos, mas com a sofisticação que o som ellingtoniano pede. A vibração e o swing de temas como ''Take the ''A' Train'', há de se registrar, aparecem ligeiramente ofuscados. Não por menos. Billy Strayhorn, mais do que um braço-direito de Ellington, seu irmão ''composicional'', morrera em 1967. Duke ainda uivava.
Talvez esteja aí a explicação do discurso que o compositor fez logo que Nixon pediu um brinde ao homem que atingiu o mais alto grau ''na realeza da música Americana''. Disse Duke: ''Não existeria nenhum lugar em que eu preferia estar neste momento. A não ser nos braços de minha mãe''.
A Blue Note, a lendária gravadora que está botando nas ruas o tributo a Ellington, é protagonista atualmente de um encontro histórico na indústria jazzística. O selo acaba de se aliar a sua grande inimiga, a gravadora Verve, para juntas lançarem uma série de CDs.
A ''The Definitive Series'' une, no mesmo padrão, sete coletâneas de astros da Blue Note e sete da Verve. A primeira escalou seu time com nomes como Bud Powell e Cannonball Adderley. A Verve ataca com mais comportados, como Stan Getz e George Shearing.
Serviço: 1969 All-star White House Tribute to Duke Ellington. Lançamento: Blue Note. R$ 65 (em média, importado)

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