Uma barreira visível começava a deteriorar a relação entre John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr. Ao readentrar no estúdio, após lançar o insuperável ‘‘Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band’’, o quarteto de Liverpool cada vez mais individualizava seus egos e talentos. Não só pela ruptura de Harrison com o mundo ocidental, mas principalmente pelo antagonismo cada vez mais claro entre John e Paul, os principais compositores da banda. Para azedar ainda mais a tenda de egos, a tal barreira chamada Yoko Ono chegava para ficar e não sair mais da vida dos Beatles.
Se em cada álbum os Beatles remavam para a mesma maré, ‘‘The Beatles’’ (nome de batismo do álbum, mas que ficou conhecido como ‘‘Álbum Branco’’ por sua capa limpa) mostrou muito mais uma reunião de quatro talentos do que uma verdadeira congregação roqueira.
John não suportava mais a verve aparecida e pop de Paul, estava farto de ficar à sombra de seu companheiro, enquanto os outros três Beatles entendiam cada vez menos as loucuras de John, que vivia grudado com ‘‘aquela japonesa’’, assistindo muita TV e falando nada com nada. É fácil entender porque o álbum ganhou moldura maior. A briga de egos e a falta de diálogo entre seus componentes os obrigou a lançar ‘‘The Beatles’’ como uma obra dupla, carregada de 30 canções.
Há a participação de Eric Clapton em ‘‘While My Guitar Gently Weeps’’, requisitada por George numa tentativa de esfriar os ânimos dentro do estúdio. Mas nada que arrefecesse a ira entre os dois compositores. Esta canção trouxe também a ira de George à tona. O guitarrista, depois de gravar 16 passagens da música, teve certeza de que John e Paul estavam sem entusiasmo algum. Mesmo o produtor George Martin saiu em defesa de Harrison, afirmando que os dois a tocavam de maneira displicente.
Apesar de todas as canções serem assinadas como Lennon/McCartney, é fácil saber quem compôs o quê. Paul sempre apostou na melodia, enquanto Lennon na experimentação e no rock rasgado e político como em Revolution 1.
Na época do lançamento do ‘‘Álbum Branco’’, parte da imprensa não entendeu aquilo que muitos chamaram de ‘‘a obra mais pretensiosa dos Beatles’’. O ‘‘New York Times’’ o profanou, usando dos seguintes argumentos: ‘‘É chato e mais da metade de suas músicas é medíocre.’’ O semanário inglês NME chamou a canção ‘‘Revolution #9’’ de ‘‘pretensiosa e um perfeito exemplo de idiotice imatura’’.
Os próprios sobreviventes do grupo deram sua opinião sobre a obra no documentário ‘‘Anthology’’. Ringo preferia que o álbum fosse dividido em dois e lançado separadamente. George disse que algumas músicas caberiam como lados B de singles, mas ‘‘o duelo de ego era muito maior’’. Já Paul o considera perfeito desta maneira.
Quarenta anos depois, muitos o consideram o melhor trabalho dos Beatles. ‘‘White Album’’ trafega por vários gêneros e temas, despindo seus integrantes e mostrando o rumo que cada um seguiria após o fim da banda naquele triste mês de abril de 1970.
‘‘The Beatles’’ (ou White Album) foi lançado no dia 22 de novembro de 1968. Gravado no Abbey Road Studios e no Trident Studios entre os dias 30 de maio de 1968 e 14 de outubro do mesmo ano e produzido por George Martin, ganhou as lojas em pacote duplo com 30 músicas e 93 minutos. Em 1998, o álbum chegou em uma versão dupla em CD para comemorar seus 30 anos, com o número de série que aparecia na capa original. Foi considerado o 10º melhor álbum da história pela revista Rolling Stone, em 2003.

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