Albino de Brito Freire
Albino de Brito Freire
EU ME FIZ POR SI MESMO...
Não posso mudar a direção do vento, mas posso regular as velas de meu barco e chegar a meu destino.
Arquivo FolhaNão sei se é verdade. Mas alguém me disse que há um livro com esse título aí. Pode ser gozação, como dizem os modernos, ou pilhéria, como diziam os antigos. Mas, hoje em dia, nada, ou quase nada, me espanta mais. É tanto ovni, tanto chupa-cabra dando sopa e desbundando por aí... Aqui, um maluco se intitula INRI (Iesus Nazarenus Rex Judeorum, v.g., Jesus Narezano Rei dos Judeus); acolá, outro doido, um crioulo muito doido, começa a comer, literalmente, antropofagicamente, outro crioulo, inciando o canabalismo pela orelha... Músicas do tipo Tô Maluco!, Tchan; Na Boquinha da Garrafa... E aquelas, então, dos Mamonas Assassinas: Vira-vira, Peládios em Sântios, Sabão Crá-Crá e outras tantas. Coisa de doido! Quem há de dormir com um barulho desses! É o sinal dos tempos! O Apocalipse! O fim do mundo!
1. Mas, por favor, deixem-me voltar ao título equivocado. O sujeito está na primeira pessoa do singular, eu, e por isso não posso usar o pronome de terceira pessoa, si, mas mim, que é a primeira pessoa do singular. Então... Eu me fiz por mim mesmo!
2. Dia desses, num jantar de confraternização, fui cercado por um grupo de colegas que queriam uma explicação para a erronia que segundo eles, ocorrera na publicação de um trabalho meu, envolvendo um caso de colocação de pronomes. Inicialmente, fiquei preocupado porque se tratava de um escrito a que se dera certa importância (Decálogo do Magistrado), e não ficava bem que logo aquele artigo com algum erro circulasse por aí, dando mau exemplo ao leitores. Seria no 4º mandamento, onde se lê: A simplicidade do Juiz deve cativar os jurisdicionados, mas sem exagero, para não confundir-se com vulgaridade ou simploriedade. Isto aí: não confundir-se. Achavam meus diligentes colegas que a negativa (não) exige sempre a próclise (não se confundir). Na verdade, é o que geralmente acontece, mas há uma exceção. Justamente quando se entrechocam na mesma frase duas forças de atração: um termo negativo (não, nunca, jamais) e o infinitivo impessoal. Nesse caso, é facultativa a colocação do pronome oblíquo: pode ocupar a posição proclítica (não se confundir) exigida pelo advérbio de negação, ou enclítica (não confundir-se) determinada pelo infinitivo impessoal. À vontade do freguês... Aliás, devo trazer para reforçar meu modesto ponto de vista a abalizada opinião de Napoleão Mendes de Almeida que, indo mais além, afirma que a posição enclítica, nos casos supracitados, é a preferida dos clássicos. Logo, não há nenhuma erronia na referida frase. De qualquer modo, fiquei deveras envaidecido com o interesse de meus companheiros por aqueles singelos mandamentos.
3 Mas vejam! A exceção só se dá com o infinitivo impessoal. E não com o futuro do subjuntivo. Não digam, portanto: Quando você recolhê-la na fonte. Está errado! Teria de ser: Quando você a recolher na fonte. Outro erro: O problema é de quem fizé-la . Não! A forma correta é: O problema é de quem a fizer. Mas com o infinitivo pessoal é diferente: Para não vos entristecerdes - é o correto. Não seria possível aqui usar a ênclise: Para não entristecerdes-vos (Errado). Ainda: É prudente não nos afastarmos da virtude - é a forma correta. Jamais. ... não afastarmos-nos!
4 . Observe: A turma foram para Londrina? O certo é foi para Londrina, pois os coletivos fazem a concordância no singular.
5Trouxeram livros para mim ler. Ora! Mim não lê coisa alguma! É para eu ler! Não me venham com essa de que se trata de norma bisonha, primária... Se a gente não se cuida, acaba tropeçando mesmo em pequenos obstáculos. Tenho escutado muita gente boa dizer: Nós estávamos se esforçando bastante... Ora, se esforçando! Não vá dizer também: A gente se vemos amanhã...
6 Outro dia, passei em frente a uma lavanderia onde se lia esta frase em letras garrafais: Atende-se em domicílio. Como o proprietário estava por ali, todo simpático e receptivo, arrisquei um elogio à forma vernácula que adotou, contrariando a maioria dos comerciantes que grafa errado: Atende-se a domicílio. E, às vezes, à domicílio (!) com crase no a, o que é inadmissível porque domicílio é palavra masculina.
7 Mas logo a seguir, um pouco abaixo, estava escrito: Estacionamento gratuíto. O certo é gratuito, sem acento gráfico, mas com a tônica na letra u-. Apontei o erro e disse: - Mas tire esse acento daí, por favor! É bom lembrar também que fortuito não tem acento. Nem tampouco intuito, nem fluido! Não se esqueça de que também nestes a tônica situa-se na letra -u -.
8 Aproveitando o ensejo, lembro que o verbo intervir é composto de vir e como este se conjuga. A gente ouve pessoas (supostamente) cultas dizer: O Governo interviu na economia, quando o certo é ...interveio ....
9 As pessoas não sabem que o pronome seu significa: dele, dela, deles, delas. E, por isso, dizem: Pedro e Paulo vieram tratar de assuntos de seus interesses. Não! O correto é: Pedro e Paulo vieram tratar de assuntos de seu interesse (ou seja, do interesse deles).
10 É preciso muito cuidado com a concordância em casos assim: Estes são os limites formais que lhe impõem a lei. O certo é: ... que lhe impõe a lei. O sujeito do predicado impõe é o termo lei. Daí, a concordância no singular.
Pois bem. Eu avisei que esse negócio de lições de português é uma chatice... Vocês é que pediram. Bem feito!
q Albino de Brito Freire é juiz de Direito em Curitiba





