São Paulo, 26 (AE) - Albano Afonso foi buscar nos livros de história da arte e em clássicas cenas de paisagens o material para criar a série "Planos de Viagem", que expõe a partir de amanhã (27) na Casa Triângulo, em São Paulo. Sua pesquisa, que durou mais de um ano, começa com intervenções sobre a reprodução de tela de Brueguel de 1563 e termina com o trabalho sobre a tela "A Montanha de Saint Victoire", pintada em 1905 por Cézanne.
No total são 35 quadrinhos sobre os quais o artista trabalhou pacientemente com um perfurador, refazendo as estruturas básicas da composição e devolvendo um certo efeito de profundidade a essas reproduções chapadas. Ao colocar essas imagens que perfurou como se fosse uma traça sobre superfícies espelhadas, Afonso reforça o caráter ilusório da pintura e ao mesmo tempo situa seu trabalho no presente. Ao admirar esses quadrinhos - que segundo o artista são uma espécie de "livro aberto" -, o espectador vê-se dentro da paisagem. "Eles passam a integrar também a paisagem ambiente; o local onde está passa a fazer parte do trabalho", explica Afonso. O quadrinho é montado de forma que o espelho reflita também o verso da reprodução, deixando que cores e textos interfiram no conjunto.
Os quadros estão dispostos como se fizessem parte de uma mesma linha do tempo que estaria estabelecendo uma espécie de ponte entre a tradição da pintura e uma reflexão contemporânea sobre sua capacidade de representação. "Eu mergulhei dentro da história da arte e do trabalho", diz Afonso, que somente agora exibe a série, idealizada em 1997 e concluída em 1998, em São Paulo (o trabalho foi mostrado anteriormente em Curitiba e um pequeno extrato de sete quadros fez parte da mostra Paisagens Sublimes, no MAM).
"Planos de Viagem" insere-se de forma precisa na trajetória desse jovem artista, colega de ateliê de outros jovens talentos da arte contemporânea paulista, como Sandra Cinto e Rosana Monnerat. O interesse pelos livros de arte - e, consequentemente, pelas paisagens - ganhou um reforço depois que Afonso abandonou a pintura , em 1996. Mas a decisão de "bordar" esses trabalhos com o perfurador foi decorrência das experiências com furos e espelhos que vinha realizando na época. "Estava investigando a passagem de uma dimensão para a outra, mas sem obter os resultados que desejava, até conseguir pegar uma coisa plana como a reprodução chapada de um quadro e devolver-lhe uma profundidade", conta ele.
A abrangência de sua linha do tempo é totalmente delimitada por esse diálogo com a história da arte. "Antes de Brueguel só encontramos a paisagem como fundo e a figura humana não me interessava", explica o artista. E depois de Cézanne o truque não funciona mais. Ao assumir o caráter bidimensional da pintura, os modernos eliminam a perspectiva e a ilusão de profundidade.
Esse trabalho rendeu novos frutos. Atualmente Afonso está trabalhando numa série na qual contrapõe de forma irônica a visão dos europeus em relação ao Brasil (Rugendas) ao protótipo do padrão europeu no mesmo período (Gainsborough), adicionando ao trabalho um tom de crítica, dando espaço a uma espécie de "vingança" em relação ao padrão hegemônico, "à necessidade de olhar para fora para poder ver o presente".

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