Alaska abaixo de zero
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de novembro de 2008
Germano Vieira<br> Especial para a Folha 
No início de setembro, eu e minha família passamos 15 dias no maior estado americano, o Alaska. O estado tem cerca de 700 mil habitantes, sendo que a maior cidade, Ancorage, tem 300 mil moradores. Conhecido entre os americanos como a última fronteira, tudo no Alaska tem cara de aventura. A economia está baseada no petróleo e no turismo. O turismo, foco da nossa viagem, se concentra nos quatro meses do verão - de 1º de maio até o final de setembro, quando as temperaturas permitem a movimentação pela região.
Pela proximidade com o Pólo Norte, o longo e rigoroso inverno torna essa região uma das mais inóspitas. O passeio começa no Canadá, de onde partem a maioria dos navios que fazem essa região. Saímos de Vancouver em direção norte no dia 6 de setembro.
A viagem é tranquila, não muito longe da costa e durante a navegação você recebe diariamente toda a programação detalhada em jornais. Todos os programas envolvem a natureza ou questões históricas da região. São tantas coisas para serem vistas que é preciso um programa rígido para todos cumprirem as visitas que desejam fazer. Eventualmente devido a questões climáticas, você pode ter um programa cancelado ou modificado.
Cada navio leva de 1,5 mil a 3 mil pessoas, o que numa cidade com 10 mil habitantes faz um bom barulho no comércio local. Normalmente todos estão envolvidos nos programas turísticos. Cada programa fora do navio é detalhado e combinado para não haver dúvidas, pois os horários sao curtos devido às distâncias que precisamos andar.
A história do Alaska é recente, remonta ao Século 19. Com uma colonização russa, que deixou marcas até hoje, os povos indígenas ainda habitam o estado e apesar de bastante aculturados, cultivam tradições e hábitos antigos e possuem direitos especiais para caça e pesca. Em março de 1867, o Alaska foi comprado da Rússia pelos Estados Unidos e passou a ser o 49º estado da federação.
A natureza se apresenta em todos os momentos da viagem, tanto no navio, entre fiordes com geleiras gigantescas e baleias, leões marinhos e focas, como em terra, com caribus, ursos, alces e cabritos monteses. Os rios são um show à parte. São duas categorias: os rios silvestres, repletos de salmões e trutas com águas transparentes; e os rios formados pelos glaciares que estão em terra, com águas cinzentas e pesadas que ziguezagueiam pela terra com preguiça.
O visual é deslumbrante. A sensação de encontrar um lugar ainda intocado pelo homem e de uma beleza exuberante nos dá uma paz rara de sentir nesse nosso planeta superpopuloso. Ver esses fabulosos animais em seu estado natural, em liberdade, com toda a sua beleza são uma oportunidade muito rara e deixam a todos encantados.
A bordo do navio, visitamos quatro cidades, todas muito pequenas e cada uma com uma atração à parte. Fora o contexto histórico, o contato com a natureza é o principal atrativo de cada parada e cada vez que você volta de um programa, já quer saber qual será o próximo.
Parque Denali
Saímos de madrugada do navio para pegar o trem. Seguimos de trem, às 6 horas, para o centro do estado para as bordas do Parque Denali, numa viagem de quase cinco horas. O Denali é o terceiro maior parque americano com mais de 5 milhões de acres e tem ao centro o Monte Mackinley, maior pico das Américas.
O trem é ótimo, com todo o conforto, apesar do pouco espaço. Tem vagão-restaurante e janelas com teto de vidro para podermos apreciar a viagem. Depois de tirar uma soneca, pois a saída é realmente cedo, quando o dia está bem claro você pode ver o que o interior tem para mostrar, completamente diferente dos passeios costeiros, mas sem deixar nada a desejar.
O lado sul do parque tem uma vista privilegiada do Monte Mackinley, o conjunto de montanhas nevadas. O lodge é muito aconchegante e com todo o conforto. Pena que a parada é curta, pois saímos no dia seguinte para pegar o trem para a parte norte do parque em uma viagem de mais cinco horas.
Essa segunda parada fica no centro administrativo do parque onde todos os visitantes precisam se cadastrar. Trilhas, passeios e aventuras para se lembrar por uma vida, desde rafting até escalada na neve ou nas pedras, há programas para todos os gostos.
Fim de viagem
Com tantas coisas para ver e fazer os dois dias da parada ''voam'', e com a partida para a última parada da viagem, Fairbanks, já começa a deixar saudades antes mesmo de terminar. Mais algumas horas de trem até Fairbanks, a maior cidade próxima ao Pólo Norte, localidade com 30 mil habitantes, mas cheia de histórias e coisas para ver. A Aurora Boreal, permanente nessa região, o Museu do Norte, que traz toda a história e pesquisas desenvolvidas nessa região pela Universidade do Alaska, com um museu financiado pela Fundação Bil e Melinda Gates. Fairbanks completa uma viagem inesquecível que apresenta um estado diferente, lindo e fascinante.
Fazendo as últimas compras antes da partida no Museu do Norte, a caixa, uma estudante da universidade, perguntou de onde eu era. ''Brazil'', falei. Ela quis saber se eu era da Bahia. ''Como é que você conhece a Bahia?'', perguntei. ''Já foi ao Brasil?''. Ela disse que estava triste, o professor de capoeira da universidade tinha abandonado os alunos, uma temporada no inverno ártico foi o bastante para ele, que deixou 20 alunos órfãos da dança e da simpatia brasileira. Eu até que gostaria, mas minha capoeira não chega nem no centro da cidade, quem dirá no Alaska. Alguém se habilita?


