Alaíde Costa canta no Parque da Aclimação
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quinta-feira, 14 de outubro de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 15 (AE) - Há algum tempo, Alaíde Costa foi chamada para participar de um show com cantoras negras no Memorial da América Latina, em São Paulo. "Não sou melhor do que ninguém, mas queria fazer alguma coisa especial", conta. Escolheu Villa-Lobos, as "Bachianas Brasileiras n.º 5". Subiu ao palco e cantou a capela e, em alguns momentos, acompanhada por baixo e arco. O público delirou. Alaíde é assim. Gosta de ousar. Amanhã (16) ela sobe ao palco novamente. Faz um show ao ar livre, às 16 horas, no Parque da Aclimação, dentro do projeto "No Clima do Som", da Secretaria Municipal de Cultura.
São 63 anos de idade e 43 de carreira, mas Alaíde não acredita que será apenas mais um show. Se há uma coisa que ela não perdeu este tempo todo é o entusiasmo. Vai cheia de expectativa para o Parque da Aclimação, "como se fosse a primeira vez", diz. "Aprendo cada vez que canto". Seu lema é - aprimoramento constante. Amanhã a tarde será especial. Alaíde vai cantar Milton Nascimento, Fátima Guedes, Astor Piazzolla e Antônio Carlos Jobim. Vai soltar sua voz delicada, cheia de harmonia e modulações, em músicas como "Milagre dos Peixes", "Retrato em Preto-e-Branco", "Decarissimo", "Minha Senhora".
O repórter pergunta: "Faca, não?" É uma obra-prima de Fátima Guedes que Alaíde canta com alma, transformando a música popular na mais pura nobreza. "Faca, sim, é uma boa idéia; acho que vou incluir no show". Grande Alaíde. Poderia ser chamada de João Gilberto de saias. Ela ri da comparação, mas confessa que lhe agrada. "Adoro o João". Uma João Gilberto feminina, intimista e exigente com sua arte (como João), mas não temperamental como o intérprete de "O Barquinho".
Alaíde fala de sua relação com João. Ela estava no estúdio, gravando seu segundo 78 rotações, nos anos 50, quando João Gilberto a ouviu cantar. A música era "Conselhos", de Hamilton Costa e Richard Franco. João gostou da voz e do estilo. Mas João era tímido. Alaíde também é. Ele não falou com ela, mas mandou dizer, por Aloísio de Oliveira, quanto gostara do seu estilo. Mais tarde João fez uma ligação importante. "Ligou para o telefone de uma vizinha, me convidando para participar do encontro de um pessoal jovem que queria mudar a música brasileira".
Foi o encontro de Alaíde com a bossa nova. Nunca mais se separaram e ela é, até hoje, uma das figuras maiores desse movimento que realmente mudou a MPB. "Fui lá e o João não apareceu; fiquei deslocada no meio daqueles rapazes, mas o Bené Nunes, que já tinha me ouvido cantar, foi muito simpático". Alaíde participou da bossa nova desde a primeira hora - "desde os apartamentos e os shows em escolas", lembra. Mas não participou do histórico concerto no Carnegie Hall, em Nova York. "Aquilo foi coisa de panelinha", conta sem mágoa.
Uma coisa que ela diz e pode até surpreender é que sofreu discriminação por ser mulher e negra. Nem por isso se abalou. "Fiquei na minha". Alaíde sempre esteve na sua. Principalmente no começo de sua carreira, ouvia muitos conselhos do tipo "Emposte mais a voz", "Solte a voz". Não era o que queria. A menina que começou em programas de calouros e depois foi crooner no Dancing Avenida, onde também surgiram Elizete Cardoso e ¶ngela Maria, teve sempre uma idéia muito firme do jeito e do repertório que queria cantar. "Gosto de uma música bem elaborada na melodia, na letra e na harmonia", define.
De nada adiantaram as pressões das gravadoras para que cantasse os ritmos da moda. "Sobrevivi a todos os modismos", Alaíde gosta de dizer. Mas pagou e ainda paga um alto preço por isso. Nunca ficou rica, admite que não é fácil sobreviver. "Às vezes passo meses sem fazer shows e aí fica difícil", diz, francamente. Nascida no bairro carioca do Méier, mora há 13 anos em São Paulo. Tem três filhos e uma neta. Adora a família, mas sua vida é a música. Lembra-se até hoje do dia em que foi cantar no programa de Ari Barroso. Anunciou a música: "Noturno em Tempo de Samba", de Custódio Mesquita. Barroso duvidou de que ela fosse cantar uma peça tão difícil e sofisticada. Aquilo foi uma lição para Alaíde. Ousar, sempre. Estudar com afinco. São receitas que segue até hoje.
A mais camerística das grandes cantoras brasileiras pode dizer que nunca fez concessões. Conheceu um grande sucesso pessoal em 1964, no Teatro Paramount, quando cantou "Onde Está Você?" no show "O Fino da Bossa". Também fez um dueto memorável com Milton Nascimento em "Me Deixa em Paz", no Clube da Esquina, em 1972. Tem 12 discos gravados no Brasil - o 13.º surgiu no ano passado, na França. Chama-se "Falando de Amor" e é o registro de um show que Alaíde fez nos anos 80 com José Luís Mazioti. É um daqueles nomes que não estão na mídia, mas Alaíde, com convicção, avaliza: "É o melhor cantor brasileiro da atualidade".


