Nem só de ficção vive um grande festival de cinema como o de Cannes. Pelo contrário. Nos últimos tempos, a constante e forte presença do documentário reafirma a explosão deste gênero que até a década passada era tido como ''menor'', ou então ''filme de natureza''. Algo invariavelmente visto como ''chato'', ou sobre curiosidades turísticas ou científicas, apenas tolerado e quando muito na televisão. Bem, isto acabou. Os documentaristas tomaram o partido do mundo, da contemporaneidade. Descobriram que o homem tem problemas diversos a encarar, e sem demora. Individuais e coletivos. E de modo geral não sabe como enfrentá-los.
Continuaram a falar da natureza, mas acionaram o sinal de alerta. Tudo muito bonito, em todos os continentes, mas infelizmente com prazo de validade. Os bichos podem acabar, lembram agora os cineastas. Porque o meio ambiente está se esgotando, envenenado, deteriorado. E se eles acabarem, bichos e entorno, o bicho-homem acaba junto.
Na programação especial fora de concurso, o Festival de Cannes incluiu um título que vai dar muito que falar. ''An Inconvenient Truth'' (''Uma Verdade Inconveniente''), já consagrado no último Festival de Sundance, é uma destas lições que ninguém deve perder. Fala do planeta, da urgência em salvá-lo. Dá nome aos responsáveis. Números, dados estatísticos, comparativos. Fatos, não ficção. Imagens. Exemplos aterradores. Registros óbvios que muitos não querem ver. Ou preferem não ver. Não é irresponsavelmente alarmista. É verdadeiramente alarmante. Se alguém me perguntasse: você já viu um documentário de terror ? Resposta pronta: é este, sem dúvida.
Dirigido por Davis Guggenheim, o filme tem dois protagonistas. Um, o ex-vice-presidente e ex-candidato derrotado à presidência dos EUA, Al Gore, mediante aquela fraude histórica orquestrada pelo Partido Republicano no Estado da Flórida. O outro, a nossa velha, cansada, abatida Terra. Gore, ferrenho ambientalista, carrega na bagagem por aí afora, já há cinco anos, uma conferência multimídia sobre uma bomba de ação retardada. É o colapso climático total, a catástrofe planetária a partir de perturbações meteorológicas extremas como inundações e longos períodos de seca agravados por mortíferas ondas de calor.
Ele aponta a gravidade do aquecimento global apoiado em argumentação sólida e atraente, alternada com sequências intimistas que revelam sua dimensão humanista. O filme é de 2005, bem recente a ponto de incluir tragédias de ontem como a de New Orleans. Mas se ele continuar na estrada, e nada for feito, seus dados fatalmente ficarão em contínua desatualização.
Esta catástrofe de espectro de ação sem precedentes é unicamente responsabilidade nossa, ensina ele. E evitá-la em sua totalidade também o é. O filme opta por ilustrar a ação e o combate apaixonado de um homem que há cinco anos batalha sem tréguas para persuadir não só os americanos, mas também o resto do mundo, sobre a necessidade premente de reagir a esta crise. A conferencia que ele ministra em ''Uma Verdade Inconveniente'' é a espinha dorsal do filme.
Gore esteve em Cannes e foi à coletiva após a exibição do filme. Sua postura e sua campanha agora são outras. Nada de cargo eletivo, nenhuma ambição a não ser de pedir muita vontade política a quem detém o poder ou detém a capacidade de mudá-lo de mãos. Em seu discurso não há lugar para mágoas políticas. São águas passadas. As outras águas, presentes e futuras em consequência do degelo, estas são sua preocupação imediata. Ele fala com convicção, com entrega. Por isso o filme vai afetar públicos muito distintos, de conservadores a liberais, de reacionários a democratas, de aflitos a acomodados. Porque o apelo contido é universal.
A co-produtora do filme, Lesley Chilcott, também veio a Cannes. E foi dela a síntese da questão: ''O grande debate sobre o aquecimento global está encerrado. A questão agora é saber quando iremos reagir''. Uma medida providencial, com certeza, seria distribuir e garantir a exibição deste ''Uma Verdade Inconveniente'' o mais rapidamente possível. Nas salas, nas escolas de nível médio e superior, nas locadoras, nas associações civis, nas praças públicas, na periferia das cidades. Nos muros, onde houver um espaço qualquer para colocar o alerta. Na consciência dos homens, especialmente os de má vontade.
O jornalista está em Cannes a convite da organização do festival.

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