A vitamina ''S'', de sujeira, pode valer mais do que um bifinho para o desenvolvimento saudável da criança, que tem a oportunidade de crescer e ficar forte, brincando.
Um tratamento fácil, indolor - exceto por algumas quedas e arranhões que qualquer chamego de mãe cura - e que deve ser seguido à risca durante toda a infância sob o risco de, na fase adulta, a pessoa que não brincou, sofrer inúmeras sequelas emocionais, psicológicas e sociais, como aponta o pesquisador britânico John Richer, do Departamento de Psicologia Pediátrica do Hospital John Radcliffe, em Oxford, na Inglaterra, que defende doses constantes de vitamina ''S'' para os pimpolhos.
Parece brincadeira, mas essa é uma constatação séria e que uma pesquisa encomendada pela multinacional Unilever, conduzida pelo Instituto Ipsos, que está sendo divulgada, deixa preocupados pais, educadores, psicólogos e pediatras brasileiros.
Aplicada em 77 cidades, representando um universo de 31,5 milhões de pais e 24,3 milhões de crianças, a pesquisa demonstra que os nossos pequenos brincam pouco, o que pode comprometer um dos quatro parâmetros usados para medir o bem-estar dos baixinhos, paralelamente à qualidade do sono, alimentação e higiene.
Os dados reveladores apontam o dedo para a consciência dos adultos, perguntando ''onde será que a nossa infância está sendo perdida?''
Para a professora do Departamento de Educação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), a psicóloga Cláudia Ximenez Alves, que coordena a Ludoteca da instituição, as crianças contemporâneas estendem a mão para uma palmatória chamada ''visão utilitária da infância''.
''As crianças estão tendo pouco espaço para brincarem até pela forma de organização social. Hoje, grande parte mora em prédios. Com espaços restritos não são estimuladas às brincadeiras e o que resta é a TV e o computador. Os pais não querem que as crianças se sujem em casa, cobrando também das instituições de ensino atividades que acreditam ter mais utilidade, preenchendo o tempo com aulas de Inglês, informática, entre outras. Hoje, as brincadeiras não são livres, mas dirigidas, o que é diferente de brincar com acompanhamento de um adulto, que é importante. Estamos didatizando o brincar'', comenta Cláudia, que é mestre em Educação pela USP.
A afirmação da psicóloga ilustra resultados da pesquisa, que demonstram que 84% dos pais acreditam que para estarem preparadas para a vida, as crianças devem, desde cedo, estudar mais do que brincar.
Quarenta e quatro por cento desses pais colocam como prioridade para os filhos, a importância de que preencham o tempo livre com atividades extracurriculares - um conceito que condecora as brincadeiras com o título de ''jogos e brinquedos utilitários'' em que uma simples ida ao pátio da escola ou quintal de casa deve servir para que os pequenos aprendem, por exemplo, noções de Matemática.
Quem é pai ou mãe já ouviu o convite, endossado por uma carinha de muxoxo: ''Pai, vamos brincar...''
Porém, grande parte desses olhinhos pidões terá que procurar alguém para brincar, noutra freguesia
já que 53% dos pais entrevistados brincam com os filhos e apenas 14% admitiram que sentem prazer em dedicar algumas horas às brincadeiras infantis.
''As crianças aprendem a lidar com regras sociais, já que brincar inclui criar e obedecer regras durante o brinquedo, que são semelhantes às do mundo real. A brincadeira é uma representação da realidade'', afirma a psicóloga.
Menores abandonados em frente à televisão não estão nas ruas, mas fechados em condomínios e casas com segurança máxima por pressão da violência urbana. É o que resta para 97% das crianças entrevistas e que citaram a TV, o DVD e os vídeos como companhia. O quarto é o local de brincadeira de 58% dos participantes do levantamento e 11% confessam que brincam sozinhos, enquanto 76% se divertem na escola.
''Não sou totalmente contra a TV, mas temos que saber conciliar as brincadeiras tradicionais. A televisão não é uma vilã, desde que saibamos como utilizar esse recurso, que tem o que é bom e ruim. De novo vêm a família para monitorar os programas que os filhos assistem.
Todo desenho animado é carragado de valores. Vamos pegar o exemplo de um brinquedo, a barbie. Quer boneca mais representativa dos valores da sociedade contemporânea? Ela só tem namorado, não é casada, não tem filho. Aí tem valores que a criança se apropria, mas numa brincadeira ela pode decidir mudar e resistir a esses valores, fazendo a barbie virar mãe. Na TV não tem como. As mensagens são assimiladas de maneira subliminar'', ressalta a psicóloga.

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