AINDA DURO DE MATAR
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 19 de janeiro de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Londrina Especial para a Folha2 
A liberalidade do título acima é evidentemente uma brincadeira com o ator Bruce Willis e o papel que o transformou em astro daquela série de inacreditáveis proezas. Lá como aqui, prevalece a condição de imortal. Nos dois casos a imaginação corre solta, com a supremacia do heroísmo embora em chaves completamente diferentes. Mas a coincidência termina nas mãos do indiano M. Night Shyamalan, o homem que redirecionou a fantasmagoria cinematográfica com O Sexto Sentido, terror light responsável por boa parte das divisas garantidas por Hollywood na temporada 99-2000.
Quando começou sua carreira comercial nos Estados Unidos, no final de novembro, Corpo Fechado de imediato foi vítima de uma incongruência. Por um lado, Shyamalan teria feito um filme com estutura similar a O sexto Sentido. E ao mesmo tempo se observou com pesar que Corpo Fechado não poderia obter um sucesso tão grande quanto o filme anterior. Assim, reclamaram falta de originalidade e na mesma medida condenaram o filme por não ser fiel a Shyamalan (!), numa espécie de jogo esquizofrênico numa industria que vai se tornando atrofiada por cifras superlativas e filmes insignificantes.
Em Corpo Fechado com certeza voltam a ser utilizados os moldes estruturais, de atmosfera e morais que já haviam desfilado em O Sexto Sentido, caracteristicas que migram de uma obra para outra e que, em outros tempos, costumava se chamar de estilo. Shyamalan é perfeitametne reconhecível como arquiteto de sua própria obra. Uma imagem de Corpo Fechado permite saber quem assina o filme, algo que quase ninguém parece disposto a discutir num tempo de trajetórias sinuosas e impessoais. E outro traço fundamental já legível no estilo Shyamalan é a urgência de contar histórias de um heroísmo possível mínimo, cotidiano em época marcada pelo cinismo e pelo populismo. Além de uma fugaz aparição a título de assinatura estilo Hitchcock , o diretor aparece como o homem de quem o personagem de Willis suspeita ter escondido um pacote de droga em seu paletó, à entrada do estádio.
A história de Unbreakable é a de David Dunn (Bruce Willis, em outra correta interpretação dramática, mas abaixo de seu rendimento em comédias), um guarda de segurança com um trabalho medíocre e uma casa cinzenta num subúrbio classe-média habitada por uma família em decomposição. Dunn sai ileso de uma acidente de trem que deixa mortos todos os outros passageiros. A partir dessa sorte extremada, de origem desconhecida e não compreendida, ele atrai a atenção de Elijah Price (Samuel L. Jackson), dono de uma galeria de arte onde são vendidas somente obras relacionadas com a matéria do argumento. Tal como em O Sexto Sentido, alguém levará alguém a descobrir sua missão na vida, e este transito servirá para que o guia compreenda qual a sua verdadeira condição. Um dado essencial é que Price, recordista com mais de 50 fraturas pelo corpo durante toda a vida, é portador de enfermidade óssea que o deixa extremamente frágil. É ele quem fornece os elementos para Dunn compreender a condição de inquebrável do título original, do Corpo Fechado de uma tradução brasileira não literal mas decente. A teoria de Price é a seguinte: se em um extremo do gênero humano pode existir alguém como ele, com ossos que se estilhaçam a qualquer momento, do outro com certeza teria que haver um Dunn imune a tudo.
A partir desse enunciado, Shyamalan, que também escreve seus filmes, constrói lentamente, sutilmente, um filme de super-heróis. Corpo Fechado é muito isso, uma saga feita sob medida para nosso tempo, com um super-homem perplexo que passou anos disfarçado sem se dar conta. Assim, para além do esperado final surpreendente (como em O Sexto Sentido), o prodigioso aqui é o processo de construção do herói. Um processo que vai sendo organizado em cada sequência deste filme cheio de virtudes gramaticais e emocionante como resultado geral de uma jornada que vai da dor à descoberta.
Apoiado em sólidos códigos de suspense sobrenatural sempre à procura da cumplicidade do espectador , Shyamalan desenha seus personagens com realismo e boa dose de verossimilhança. Dunn e Price experimentam dúvidas, inseguranças e com certeza não são infalíveis. Bom de casting, o diretor traz à cena outro garoto, tão eficiente quanto o paranormal de O Sexto Sentido. O nome da vez é Spencer Treat Clark. A fotografia do espanhol Eduardo Serra é excepcional, e a discreta trilha sonora se destaca por incluir o silêncio absoluto como ótimo recurso dramático.


