PRÊMIO -

Ailton Krenak é o "Intelectual do Ano”

Líder indígena alfabetizado no Paraná é o vencedor da 62ª edição do Prêmio Juca Pato, concedido pela União Brasileira de Escritores

Marcos Roman - Grupo Folha
Marcos Roman - Grupo Folha

A população brasileira tem assistido constantemente tristes episódios que evidenciam claramente a polarização que divide o País. E mais um capítulo desta história foi escrito esta semana. Em meio a drásticas cenas de queimadas que estão dizimando parte do Pantanal e da Amazônia, os brasileiros são surpreendidos positivamente com a notícia de que um líder indígena foi eleito o Intelectual do Ano. Trata-se de Ailton Krenak, escritor e ambientalista vencedor da 62ª edição do Prêmio Juca Pato, concedido pela União Brasileira de Escritores (UBE), que será entregue em dezembro. 


Criado em 1962, o Prêmio Juca Pato já condecorou nomes como Lygia Fagundes Telles, Carlos Drummond de Andrade e Jorge Amado, entre outras dezenas de escritores. Krenak foi indicado à premiação literária pelo livro "Ideias Para Adiar o Fim do Mundo", lançado pela Companhia das Letras em 2019. O autor indígena concorreu com nomes de peso como Djamila Ribeiro, Eliane Brum, Laurentino Gomes e Maria Valéria Rezende. 



Estou morando na zona rural do Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. Fiquei surpreso quando recebi a notícia do prêmio. É um sentimento excepcional receber uma premiação que foi concedida a autores da importância de Milton Hatoum, que tem uma obra fantástica e foi premiado há dois anos”, afirmou Krenak em entrevista à FOLHA por telefone diretamente do Vale do Rio Doce, interior de Minas Gerais. 


Ailton Krenak: “Moramos na região de Alvorada do Oeste (PR) entre 1969 e 1971. Foi um período de exílio pois tivemos que fugir da nossa região devido a conflitos fundiários”
Ailton Krenak: “Moramos na região de Alvorada do Oeste (PR) entre 1969 e 1971. Foi um período de exílio pois tivemos que fugir da nossa região devido a conflitos fundiários” | Mathilde Missioneiro/ Folhapress
 


Durante a ligação que caiu várias vezes por falhas do sinal na zona rural onde ele estava, Krenak destacou que a surpresa com a premiação foi ainda maior por não se considerar um escritor e sim um contador de histórias. “Minhas publicações são fruto da oralidade, são decupagens de minhas falas em palestras e entrevistas. Fiquei feliz pois esse prêmio também representa uma valorização da cultura oral, que é muito comum nas comunidades indígenas que insistem em contar suas histórias para as novas gerações para que nossas raízes não se percam no tempo”, enfatizou. 

Ao mesmo tempo em que comemora o fato de ter sido eleito o “Intelectual do Ano”, Krenak afirma estar estarrecido com os ataques ao meio ambiente que têm acontecido no Brasil. “Vivemos essa briga fundiária há muito tempo e chegamos ao ápice dessa crise quando vemos um presidente ir à ONU [Organização das Nações Unidas] dizer que os índios e os caboclos são responsáveis pelos incêndios que atingem o Pantanal e a floresta amazônica. Quem estudar um pouco de geografia vai entender que se isso fosse verdade os povoados indígenas já teriam se exterminado há 500 anos”, ressalta. 


 67 anos de luta 


Ailton Krenak nasceu no Vale do Rio Doce, Minas Gerais, em 1953. Com 17 anos, migrou com seus parentes para o estado do Paraná. “Moramos na região de Alvorada do Oeste entre 1969 e 1971. Foi um período de exílio pois tivemos que fugir da nossa região devido a conflitos fundiários”, conta o líder indígena sobre o período que se alfabetizou e passou a atuar como produtor gráfico e jornalista.  

Desde o início dos anos 1980 Krenak tem se dedicado exclusivamente à articulação do movimento indígena no país. Ele ficou conhecido no mundo todo quando, em 1987, durante as discussões em torno da elaboração da Constituição Federal, pintou o rosto de preto com pasta de jenipapo enquanto discursava no plenário do Congresso Nacional para protestar contra o que considerava um retrocesso na luta pelos direitos dos índios brasileiros. O gesto ganhou projeção internacional.  


Em 1988, participou da fundação da União dos Povos Indígenas (UNI), organização que visa representar os interesses indígenas dentro do cenário nacional. No ano seguinte, participou do movimento Aliança dos Povos da Floresta, que reunia povos indígenas e seringueiros em torno da proposta da criação das reservas extrativistas, visando a proteção da floresta e da população nativa que nela vive.  

Autor dos livros “O Lugar Onde a Terra Descansa” (2000, Núcleo De Cultura Indígena/Eco Rio), “Encontros: Ailton Krenak” (2015, Azougue Editorial), "Ideias Para Adiar o Fim do Mundo" (2019, Companhia das Letras) e “O Amanhã Não Está a Venda” (2020, Companhia das Letras), Krenak retornou à sua terra natal, de onde tem saído para participar de eventos nacionais e internacionais focados no meio ambiente.  


 Relevância internacional

 

Presidente da União Brasileira de Escritores (UBE), Ricardo Ramos Filho afirma que o livro "Ideias para Adiar o Fim do Mundo", responsável pela indicação de Ailton Krenak ao prêmio de Intelectual do Ano, é primoroso. “Esse livro traz a declaração emocionada do representante de um povo para quem o meio ambiente é tudo: é sua casa, é sua escola, é sua farmácia. É um discurso que aproxima pessoas que também abraçam essa causa", resume. 

Ele destaca que o Troféu Juca Pato não leva em conta apenas a produção literária dos concorrentes. “Não basta ter escrito um livro no ano anterior apenas. A pessoa tem que ter relevância política e uma trajetória de defesa de valores políticos, entre eles a liberdade de expressão, a democracia e os direitos humanos”, enumera. 



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Frases de Ailton Krenak  


"A minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história. Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o fim".


 "A natureza segue. O vírus não mata pássaros, ursos, nenhum outro ser, apenas humanos. Quem está em pânico são os povos humanos e seu mundo artificial, seu modo de funcionamento que entrou em crise".


 “Filho, silêncio”. A Terra está falando isso para a humanidade. E ela é tão maravilhosa que não dá uma ordem. Ela simplesmente está pedindo: “Silêncio”. Esse é também o significado do recolhimento".


 “Tomara que não voltemos à normalidade, pois, se voltarmos, é porque não valeu nada a morte de milhares de pessoas no mundo inteiro” 




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