Ai, Jesus. Quando me disseram que a defesa da Alemanha era invulnerável, que a marcação na área deles era feita a ferro e fogo e que, ainda por cima, eles tinham um goleiro chamado Kahn, confesso: senti um frio na barriga.
Para confirmar as previsões, nos primeiros 30 minutos de jogo, o osso estava duro de roer, o tal de Kahn parecia um guerreiro construído, um rottweiler guardando a rede do primeiro mundo.
Ai, Jesus. No final do primeiro tempo, quando a turma lá em casa estava encolhidinha no sofá, tive um pressentimento como se um vento verde-amarelo mudasse os rumos naquele campo longínquo do Japão, onde já era noite, a noite mais importante da Copa do Mundo. Foi quando a magia começou a entrar em cena, com a bola cruzando mais fácil a área deles. E a nossa seleção, a cada cinco ou dez minutos, quase chegando, quase chegando, parecendo um toque de olodum, cada mais quente.
Eparrei, Iansã. Era o vento levando para o Japão o axé da Bahia, do Rio, do Amazonas, do sul do Brasil, porque a nossa mandinga vai longe, é capaz de atravessar a barreira alemã, a muralha da China, ameaçar a rede de Kahn - já quase sem dono - lá pelos 40 minutos do primeiro tempo, quando a estrela do Brasil começou a incendiar o campo.
Mas ai, Jesus. O goleirão alemão ainda estava lá, com pinta de rottweiler. Eu saí da sala pensando ''xô, baixo astral'' e botando fé no meu amigo Renato que no intervalo do jogo vaticinou: ''Que Kahn que nada. O penta é nosso!''
Eu acreditei. Realmente, o Brasil estava criando mais oportunidades com o Kléberson invadindo perigosamente a área deles com seu pé vermelho. E Ronaldinho insistia, insistia, como se soubesse que naquele domingo a vitória estava para sair da sua graça, da sua ginga, da sua habilidade. Não deu outra. É goooool...Aos 22 minutos do segundo tempo.
Foi quando a muralha cedeu, Kahn perdeu o rebote e o rebolado, a ficha do time alemão caiu com o sonho do pentacampeonato já atravessando o oceano. South american way.
Daí para a frente, a seleção brasileira só foi crescendo, entrou no rumo da auto-estima que faz esse povo brigar, faz esse povo gritar, faz esse povo crescer. Porque há um momento do jogo em que abaixa um santo, um ziriguidum, e o time começa a correr como nunca, a invadir a área do adversário, a tomar magistralmente a bola deles e vai chegando, chegando.
Foi assim que Ronaldinho fez o segundo gol. Ainda mais bonito que o primeiro, porque desarmou a defesa alemã com um chute cruzado no canto esquerdo, como um menino habilidoso que pula a muralha e pega a fruta...no pé.
Ainda deu tempo de Felipão mexer no time. Botar em campo as feras que guardou no quintal. Ronaldinho saiu aplaudido, chorando, já identificado como o herói da Copa, o brasileiro que superou a si mesmo para bater lá no Japão os gols da vitória sobre Kahn, o invulnerável, o guardião da porta do primeiro mundo. Essa porta só abre com o toque do olodum, da sagrada ginga, do sincretismo de credos que o Brasil tem de sobra. Ai, Jesus. Eparrei, Iansã que o penta é nosso!

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