Ah, Maricotinha...
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sexta-feira, 15 de março de 2002
Zeca Corrêa Leite<br>Equipe da Folha 
Curitiba - Depende de cada um a filtragem do tempo: ele pode ser uma vastidão opressiva a engolir o passado em brumas ou espelhos a refletir horizontes futuros, pelas possibilidades que esse mesmo passado ensinou existirem. Maria Bethânia filtrou musicalmente a estrada de 35 anos de carreira e colocou no palco Maricotinha, show que o curitibano verá apenas esta noite, às 21 horas, no Guairão. O espetáculo é uma celebração a essa caminhada, que teve início na Bahia quando Nara Leão ouviu-a cantar e convidou-a para substituí-la no Opinião, montagem de sucesso no Rio de Janeiro. A baiana era quase uma menina. Hoje é uma das raras cantoras que está acima do bem e do mal, pela postura artística e profissional que ostenta desde sempre.
Generosa, Bethânia canta 40 músicas e declama uma porção de poetas. Sim, Fernando Pessoa está no roteiro, sinalizando com seus versos de Poema do Menino Jesus o fantástico show Rosa dos Ventos. Outros momentos capitais de sua carreira estão presentes, mas assim como o repertório traz compositores mais novos, a cantora também declama pela primeira vez duas poetas portuguesas, Natália Corrêa e Sophia de Mello Bryener. Os brasileiros Ferreira Gullar e Lya Luft completam o quarteto de inéditos.
Faltou espaço na agenda para Maricotinha vir mais cedo à cena. Os 35 anos foram completados em 2000 a cantora surgiu para o sucesso em 1965, mesmo ano em que a gaúcha Elis Regina ganhava as paradas com Arrastão. Carcará, no entanto, parece que não está no show. Uma pena. Não existe Carcará sem Bethânia. Mas no palco desnudo de cenário, a artista impera soberana. Nessa festa entre amigos ela chamou Fauzi Arap (o mesmo de Rosa dos Ventos) para dirigi-la e Jaime Alem para dividir-se entre maestro, arranjador, cuidar do teclado, violões e colocar voz em alguns momentos. Enfim, gente que a acompanha desde outros carnavais.
Entre as canções, a fala, e na fala a inconfundível Copacabana: Quando eu cheguei no Rio foi Copacabana que me recebeu com seu cheiro de batata frita e gasolina, suas tardes de trovões e raios e suas noites de puro glamour, o Teatro Opinião onde estreei profissionalmente com o Zé Kéti e o João substituindo Nara. E as boates, eu cantei em quase todas, eu adorava fazer show em boate, foi onde eu aprendi tudo, porque o público de boate é diferente (...) Quando eu cheguei no Rio de Janeiro, Elizeth fazia o Cangaceiro, Nara fazia o Barroco, Chico Buarque e o MPB-4 faziam o Arpege, Silvinha Teles, a gente se encontrava toda noite no Bateau, isso era maravilhoso. Até hoje venho passear por ela à procura da primeira impressão, o seu perfume único, à procura da minha Princesinha do Mar e o seu colar de pérolas.
Dá-lhe, Maricotinha!
Maricotinha, show com Maria Bethânia. Sábado, 16, às 21 horas, no Guairão. Ingressos: R$ 60,00 (platéia), R$ 50,00 (1º balcão), R$ 40,00 (2º balcão). Não são aceitos cheques. Informações pelos telefones 322-2628 e 322-7778.


