LIVRO Aguinaldo Silva prepara romance policial Novelista retorna às origens com ‘‘52 Tiros de Audiência’’, cuja trama é ambientada nos bastidores de uma novela Arquivo FolhaAguinaldo Silva:‘‘O que sempre quis foi escrever literatura’’ Agência Estado Aguinaldo Silva prepara aos poucos sua transição de novelista para romancista. É uma volta às origens. Autor de alguns dos maiores sucessos do horário nobre da TV brasileira, como ‘‘Roque Santeiro’’ (em parceria com Dias Gomes, de 1985/86) e ‘‘A Indomada’’ (97), Silva volta-se, novamente, para a literatura, gênero em que começou a carreira, há 39 anos. ‘‘Nunca fui novelista, estive novelista’’, afirma. ‘‘O que sempre quis foi escrever literatura’’. Há dois meses, o autor escreve ‘‘52 Tiros de Audiência’’, um romance policial ambientado nos bastidores das gravações de uma novela das 8. O autor, de 56 anos, garante que só não abandona as novelas agora porque seu contrato com a TV Globo prevê que escreva uma novela por mais quatro anos. ‘‘Em 2004 vou estar com uma idade muito adiantada para perder um ano a cada dois’’, diz, referindo-se aos 12 meses em que o autor passa em frente do computador quando assina uma novela. ‘‘Fazer telenovelas hoje é como colocar uma pizza no forno’’, critica. ‘‘Não há mais aventura em escrever esse gênero, não há mais prazer’’. Segundo o autor, decisão igual já estava tomada em 98, quando a Globo o convidou para escrever ‘‘Suave Veneno’’ (99). ‘‘Mas a emissora me fez uma proposta financeira irrecusável’’, justifica. ‘‘52 Tiros de Audiência’’ passa-se nos bastidores de uma telenovela em crise. A estrela da trama cria os maiores problemas nas gravações e provoca a ira de todo o elenco. A direção da emissora, então, pede ao autor que mate a personagem principal e afaste a atriz da produção. Só que a atriz é assassinada poucas horas antes de gravar a cena da morte de sua personagem. ‘‘Todo o elenco passa a ser suspeito’’, conta o autor. ‘‘A história fala de um mundo que conheço muito bem’’, diz o autor. Ele define a obra como um ‘‘romance policial com um quê de memória e um pé na revista Caras’’. Silva diz não ter intenção de desmascarar nenhum ator ou de arrumar inimizades. Ele já viveu a situação semelhante algumas vezes. ‘‘Na novela ‘O Outro’, por exemplo, eu tive de matar o personagem do José Lewgoy porque o ator estava criando muitos problemas’’, conta. O escritor espera ter na literatura o reconhecimento que tem na TV. ‘‘Estou mal-acostumado com o sucesso das novelas, vistas por 40 milhões de pessoas’’, confessa. ‘‘Quero ser um best-seller’’. O autor diz que não pretendia apimentar tanto a história, mas não conseguiu. ‘‘A coisa me fugiu ao controle e alguns trechos do livro, como o depoimento da atriz, têm um monte de palavrões’’, conta. ‘‘Não pude evitar’’, continua. ‘‘Acho que o livro será mais polêmico do que havia pensado’’. Silva entrou para a televisão em 1978 escrevendo a ótima série ‘‘Plantão de Polícia’’. Repórter policial, escrevera quase uma dezena de livros, mas não se conformava com a dificuldade em ser aceito pelas editoras. Ironia, um de seus livros rejeitado pelas editoras deu origem à elogiada série ‘‘Bandidos da Falange’’ (83). Na época, o autor declarou: ‘‘A televisão é a mais autêntica alternativa popular para o escritor brasileiro’’. Começava então a carreira de escritor para a TV. Nestes 22 anos, escreveu ainda ‘‘Partido Alto’’ (84), ‘‘Tenda dos Milagres’’ (85), ‘‘O Outro’’ (87), ‘‘Pedra sobre Pedra (92) e ‘‘Fera Ferida’’ (93). ‘‘52 Tiros de Audiência’’ não era o projeto inicial de Silva para voltar à literatura. Depois de uma vasta pesquisa, ele escreveria um romance histórico-policial sobre a vida do escritor João do Rio. No romance, Silva recriaria o Rio do início do século frequentado por João do Rio, Machado de Assis e Prudente de Morais. ‘‘Mas percebi a tempo que, depois de três novelas, seria melhor voltar à literatura escrevendo sobre um tema que conheço bem’’, justifica. A volta à literatura é para Silva a possibilidade de escrever um texto realmente autoral. ‘‘Nas novelas estamos sempre subordinados à pressão da audiência, da direção, das pesquisas, etc.’’, explica. ‘‘Morro de rir quando um novelista diz que é autor da sua obra’’, continua. ‘‘O autor de novelas é apenas um porta-voz de uma obra conjunta’’.