Aguçando a criatividade
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 08 de junho de 2000
Jackeline Seglin De Londrina 
Paradoxalmente e também com um certo intento de provocação, há anos afirmo reiteradamente que a única solução para a questão da renovação teatral seria obrigar os atores e as atrizes a escrever as próprias comédias... ou tragédias, se preferirem. A afirmação do ator e dramaturgo italiano Dario Fo não é somente espirituosa, como ele ressalta no livro Manual Mínimo do Ator (Editora Senac-SP).
Na opinião de Fo Prêmio Nobel de Literatura de 1997 a princípio se estabeleceria um notável crescimento cultural dos atores e atrizes, já que, no mínimo, seriam obrigados a ler, a estudar mais, a aprender a sintaxe e a articulação dramatúrgica. Além do mais, teríamos atores mais bem preparados ideologicamente, em condições de saber falar daquilo que estão interpretando.
O assunto gera controvérsias, mas essa vertente está ganhando forças, tendo em vista a atual escassez de produção dramatúrgica no Brasil. O que não anula o surgimento esporádico de novos e bons autores.
Esta semana, o Filo proporcionou uma experiência interessante ao reunir 28 jovens em uma oficina de dramaturgia com a uruguaia Mariana Percovich. A grande maioria do grupo era formada por estudantes do curso de Artes Cênicas da Universidade Estadual de Londrina. Gente que está dando os primeiros passos e ainda não tem uma definição de que futuro trilhar dentro das artes cênicas.
A oficina com carga total de oito horas apresentou subsídios para os trabalhos, sem limitar as atividades ao ensino da técnica ou à receita de como escrever para teatro. Mariana Percovich explorou a criatividade, a emoção individual, a noção do trabalho em grupo importantes elementos de formação do artista.
O trabalho da dramaturga uruguaia segue a linha da nova dramaturgia. Através da desconstrução da narrativa lógica e do personagem, essa vertente mistura as lógicas dedutiva, indutiva, causal, dialética, poética e a antilógica (por acaso). À primeira vista, uma idéia confusa para os participantes. Mas a escolha dos temas a serem trabalhados logo deixou as pessoas mais à vontade para viajar em suas histórias.
Prostitutas que são cobradas pelo cafetão para dar conta de um grupo de clientes em despedida de solteiro; o coveiro que se apaixona por um túmulo; os travestis desempregados que acham dinheiro em uma casa abandonada; um doente que tem ao seu lado uma enfermeira fantasma (o amor de sua vida) e um médico que se apaixona pelo interior do morimbundo. Dá-lhe criatividade! Mariana Percovich acha ótimo. Quando realizei oficinas como essa no Uruguai, notei temas bem diferentes, mais realistas. Aqui eles são bem empolgados, partiram para idéias que envolvem cemitérios, sala de cirurgia... Aí está uma diferença entre o Uruguai e o Brasil, comentou.
Situações engraçadas e inusitadas à parte, o fato é que o grupo trabalhou sério, baseado numa metodologia que partiu da escolha de personagens até o ponto mais importante, na opinião da dramaturga: a revisão da peça e a limpeza de elementos desnecessários.
O resultado da experiência deixou claro o contraste entre o medo inicial de se expor e a contagiante empolgação no final da jornada. Isso é só um jogo, alerta Mariana. Recomendo que se lembrem desse momento. Agora vocês podem tentar escrever uma peça, dando continuidade ao trabalho.
Em seu recado final, Mariana Percovich salientou a importância do artista se desamarrar da realidade e enfrentar o medo. É preciso fugir do real, para não recriar o realismo simples. Isso a televisão já faz. Trabalhar com o mítico, o absurdo, é muito mais teatral. Por isso a lógica poética é magnífica no teatro, diz. A experiência proporcionou aos 28 alunos alcançar mais um degrau na desmistificação da dramaturgia: Cada um de nós pode sair daqui e escrever.


