Água: o planeta do seu Ataliba
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quarta-feira, 04 de junho de 2003
Lúcio Flávio Moura<br> Reportagem Local 
Seo Ataliba gostaria muito de falar com Fabrício, seu neto caçula.
Cansou-se das queixas do Romualdo, o velho ranzinza que não deixa ele dormir com tanta tosse. O tormento começa antes do galo cantar, pontualmente às 4h30. E quando Romualdo enfim sossega, cansado de tentar colocar definitivamente sua bronquite para fora do corpo, Ataliba vira-se, abre os olhos, observa o breu, murmura um lamento, passa a recapitular os fatos que compõem sua atual fixação.
Suas noites mal-dormidas no asilo (falam em casa de convivência para amenizar, mas ele não se deixa enganar, está mesmo em um asilo, uma palavra que há 15 anos lhe dava urticária) não podem ser aproveitadas senão para pensar, pensar, pensar...
É nesta hora, quando a enfermeira não o importuna (''Olha, o remedinho!''); quando não tem que fazer planos para a próxima excursão; quando não tem que falar de seus problemas para o analista; quando não precisa fazer política com suas pretendentes para a dança; quando não é preciso comer mesmo sem ter apetite; bom, é nesta hora que o velho Ataliba pensa mais profundamente, faz suas reflexões sobre a vida que está chegando ao fim. É nesta hora que pensa em Fabrício e de como deveria construir, em diálogos, um legado para seu neto.
Já ligou para os pais dele. A filha foi sinceramente cética e acabou prometendo que o garoto faria a visita em uma tarde de sábado. Se sua memória não falha (falha uma barbaridade, mas ele já está dando um desconto), passaram-se cinco semanas desde a promessa. E nada. O garoto está aprendendo a manusear uma picape é o que disseram. Está querendo ganhar dinheiro com música eletrônica bem, é o que disseram. E está às voltas com o vestibular. Tem, portanto, desculpas de sobra.
Aos 75 anos, seo Ataliba já sabe em que depositar esperanças. Decidiu guardá-las para coisas mais apropriadas. Não acredita mais em promessas juvenis. Gostaria de uma conversa olho a olho com o garoto, de tentar comovê-lo, de tentar ir além, transformar um conselho em algo forte o suficiente, vê-lo assimilando tudo o que ele próprio deveria ter assimilado, e que estava velho demais para assimilar.
Sem diálogos com o único adolescente ao qual tem acesso, Seo Ataliba mentaliza seu plano: montar uma operação para deixar sua mensagem, ainda que corra o risco de nunca ser lida. Depois do café e dos ''remedinhos'', irá abrir seu velho baú, apanhar recortes, alguns livros, sua máquina de escrever lembrança da repartição em que trabalhou por quase 30 anos.
O canto dos pássaros há de inspirá-lo nesta manhã. As teclas haverão de ser obedientes e a mensagem sairá cristalina, a ponto de tocar o coração duro de um adolescente. O velho Ataliba quer mostrar que aprendeu com a vida, que hoje enxerga ''besteiras'' como ''coisas grandes''.
Ele nem sabia, mas acabou se preparando meses para escrever a mensagem. O que leu sobre água no período ''foi uma grandeza''. Assunto que passou a fasciná-lo inexplicavelmente. E é justamente sobre água que o funcionário público aposentado quer escrever para o neto rebelde. Uma das ''besteiras'' que ele passou a encarar como ''coisa grande''.
A mensagem não será baseada apenas em livros, jornais, revistas. Ele há de forçar a memória, lembrar dos banhos no riacho, de como eles eram feitos sem medo de pegar uma pereba qualquer. Era uma água limpa que servia até para beber. Lembrar que hoje o riacho é um filete sujo com agrotóxico contou um compadre e que as crianças daquele sítio nem sabem mais que um dia alguém mergulhou e pescou sem, ao menos, saber valorizar tudo aquilo.
A memória há de abastecê-lo. Há de lembrar que não havia contas de água e que não precisava de geladeira para beber água fresca. Que não havia filtros de barro. Que não havia cloro. Havia potes de água límpida e confiável. Que tudo isto se perdeu para sempre e que o símbolo da vida está aos poucos se tornando símbolo da agonia da civilização moderna.
Seu neto caçula tem que saber: água é uma riqueza que cai do céu mas que tanto desperdício está fazendo ela se escassear. Que somente muito amor a ela poderá garantir um futuro vivo para Fabrício desfrutar.
Que em 1995 o Banco Mundial alertou, como conta a revista: ''As guerras do próximo século serão por causa da água, não por causa do petróleo ou política''. Em 1967, lembra o recorte do jornal, Israel implementou uma guerra contra seus vizinhos porque eles queriam desviar o leito do Rio Jordão, que junto com seus afluentes fornecem 60% da água necessária a Jordânia e boa parte do consumo da Síria. Seu neto caçula haverá de ter conhecimento disto.
Que 250 milhões de pessoas, em 26 países, enfrentam escassez crônica de água. Que em 30 anos, os números deverão ser muito mais assustadores: 3 bilhões de pessoas lutando por quantidade mínima de água em 52 países. Que 60% das cidades chinesas sofrem com a escassez de água potável e que 80 milhões de habitantes daquele país têm que andar mais de 1,5 quilômetro para conseguir água. ''É...Meu neto tem que saber estas coisas''.
Que no norte da África e no Oriente Médio, a quantidade per capita de água estará reduzida em 80% em duas décadas. Que a dessalinização das águas do mar, sugestão da ONU para combater o problema, é cara demais para países pobres. E que a prospecção de estoques subterrâneos profundos, diz a revista, também demanda tecnologia de alto custo. O adolescente não há de ficar indiferente a tudo isto, a esta situação tão grave. Fabrício tem o sangue do velho Ataliba e este sangue nunca foi de barata.
''Meu neto, não perca a capacidade de se indignar!''. As frases vão brotando em sua cabeça. ''Quinze por cento da água tratada é perdida em vazamentos nas canalizações, meu neto!''. Ele também vai contar: 40% da água desviada é efetivamente utilizada na irrigação. Porque se aplica água em excesso, se aplica fora do período de necessidade da planta, em horários de maior evaporação do dia, pelo uso de técnicas inadequadas ou pela falta de manutenção dos equipamentos.
Ao contrário dos mananciais, o baú parece uma fonte inesgotável, calcula seo Ataliba. Tem até uma fotocópia de um texto de Samuel Murgel Branco, professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo: ''Se a bacia é ocupada por florestas nas condições naturais, essa água vai ter uma boa qualidade porque vai receber apenas folhas, alguns resíduos de decomposição de vegetais, uma condição perfeitamente natural. Mas se essa bacia começar a ser utilizada para a construção de casas, para a implantação de indústria, para plantações, então a água começa a receber outras substâncias além daquelas naturais, como por exemplo, o esgoto das casas e os resíduos tóxicos das indústrias e das substâncias químicas aplicadas nas plantações. (...) Acima de um certo limite, o tratamento nem mais é possível, porque existe uma limitação para a capacidade depuradora de uma estação de tratamento''.
E Fabrício acabará descobrindo: é importante proteger as nascentes e as áreas em torno dos mananciais.
Está em um recorte, ele lembra: ''A reciclagem da água está sendo cada vez mais utilizada: na refrigeração de equipamentos, na limpeza das instalações, na produção primária de metal, nos curtumes, nas indústrias têxteis, químicas e de papel''. Parece bobagem mas o velho Ataliba incluirá outros dados na mensagem: para fabricar um quilo de papel são necessários 540 litros de água; para uma tonelada de aço, 260 mil litros; uma pessoa consome em casa, em média, 300 litros.
Pensador cético, o velho Ataliba tentará convencer o neto com palavras bíblicas: ''Porque a esperança para a árvore, que, se for cortada, ainda se renovará, e não cessarão os seus renovos. Se envelhecer na terra a sua raiz, e morrer seu tronco no pó, ao cheiro das águas, brotará e dará ramos como planta''. Ele vai checar mas tem quase certeza: Jó, capítulo 14, versículo 9.


