Existe uma rede invisível de leitores de romances curtos e baratos que vendem milhões em todo o mundo. São romances das séries Julia, Sabrina e Bianca e campeões de vendas da Editora Nova Cultural. As vendas são impulsionadas à revelia do marketing pesado. Distribuídos em todas as bancas do País, o método bíblico do boca a boca é o que impulsiona a circulação dos livros.
Esses leitores (sim, existem muitos homens) devoram diariamente histórias de amor açucaradas. Em Londrina, um grupo quer formar um Clube de Leitores de Romance. A secretária Telma Alves da Silva, 24 anos, leitora assídua da série, está protagonizando essa idéia. A intenção é montar um acervo, promover encontros regulares para que os associados possam trocar, emprestar livros e se conhecerem.
Há uma aura de preconceito rondando os leitores desse universo. ‘‘Existe um certo preconceito. As pessoas pensam que lemos coisas que não trazem cultura ou que vivemos no mundo da lua. Mas não é assim’’, defende Telma. Se os cinemas anunciam diariamente filmes de todos os gêneros, mas atrelados às histórias românticas, essa vertente literária apresenta a mesma fórmula. ‘‘Tem gente que pensa que só porque eu leio Sabrina, não posso ler revistas como Veja, Você S.A. ou Exame’’, prossegue.
Os livros são esquemáticos: o herói e a heroína passam por dificuldades ou perseguições, mas ao final obtêm êxito na aventura amorosa. ‘‘O que Tess descobriu, depois, era que a felicidade ia muito além dos sonhos românticos que ela acalentava havia tanto tempo. Era algo mágico, indescristível, que só mesmo o verdadeiro amor poderia trazer.’’ Esse final representativo foi extraído do romance ‘‘As Estações do Amor’’, de Diana Palmer, livro da série Julia. Ao lado de Sabrina e Bianca, o título vende milhões no mundo.
‘‘Eu não sonho em ser heroína, tenho os pés no chão’’, advoga Telma da Silva. A tia da secretária, Ana Francisca Alves, 40 anos, foi a primeira a se filiar ao Clube de Leitoras de Romance. ‘‘Tem gente que ocupa o tempo livre com pescaria. Nós gostamos de ler’’, afirma. Conhecedoras das séries de romances, elas classificam os Clássicos Históricos como os mais difíceis de serem encontrados. São romances ambientados nos meio oeste norte-americano, por exemplo, rico em detalhes e resultado de pesquisa sobre os costumes da época.
Num fôlego só, em apenas duas horas, Telma da Silva lê, o romance ‘‘Trapaça no Amor’’. Na adolescência foi a fase de mergulho mais profundo nesse universo. ‘‘Esses livros são uma fuga para algo que te machuca. É um hobby como qualquer outro’’, avalia.
A romancista britântica Barbara Cartland é um dos nomes reverenciados no meio. Falecida recentemente aos 98 anos, ela vivia num mundo cor-de-rosa e ainda sonhava com príncipes encantados. A rainha da novela água-com-açúcar vendeu 1 bilhão de exemplares, publicou 723 títulos e foi traduzida em 36 idiomas. Mas os escritores de nomes apropriados – Emily French, Leigh Michael, Judith McWilliams, Carolyn Zane, Taylor Ryan – são de várias procedências, como Nova Zelândia, Canadá e Estados Unidos. Os personagens, segundo Telma da Silva, sofreram consideráveis mudanças na personalidade nos últimos anos. Os homens manipuladores e controladores cederam lugar a personagens mais sensíveis. As mocinhas sofredoras e lacrimejantes perderam vaga para as mulheres mais rudes e determinadas.
Mulheres de todas as faixas etárias devoram as histórias de Julia e Sabrina. Até psicólogo indica a pessoas portadoras de ansiedade esse tipo de literatura. No troca-troca de livros, cada consumidor sai com pelo menos 4 exemplares, como acontece no Sebo Capricho, em Londrina. Nos sebos, os preços dos livros variam entre R$ 0,40 e R$ 3,50.
Serviço: Mais informações sobre o Clube de Leitores de Romances pelos telefones (43) 334-0878 ou 9116-1847, com Telma Silva.

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