Agruras de um trágico (Wilson Bueno)
Wilson BuenoAgruras de um trágico
O estudante de Letras de São Bernardo do Campo telefona me pedindo uma reflexão sobre o humor, a anedota brasileira, o chiste. Para ser publicada no jornal da universidade. Considerando-me não de todo indicado para a tarefa, ensaio uma fuga:
- Mas não sou propriamente um humorista - desguio, já com a caderneta de telefones na mão, pronto para indicar um cara que eu acho capaz de nos matar de rir - o Reynaldo, do Casseta & Planeta. Ou, uma brasa da casa, o Nelson Capucho, que, além de poeta exímio, é hilariante cronista.
O estudante se surpreende:
- Como não é um humorista? Aí não é Curitiba, da casa do escritor...
- É, é da casa dele mesmo - confirmo, meio sem graça.
- Então? - o estudante capricha na dicção paulistana.
- Não, seguramente esta não é o que eu poderia chamar de a minha praia... - ameaço firmeza, mas a voz me trai, sem convicção.
- Como não é a sua praia, meu ? - o estudante carrega ainda mais no sotaque, forçando intimidade do tipo boa-praça ainda que tranchã.
- Tudo o que sei do senhor, viu?, é nessa linha - do seu primeiro livro ao último o que há é o humor, o mais deslavado humor...
Penso nos meus sombrios personagens:
- E você leu todos? - me interesso, confiando em que o detalhe talvez me salve a tarde.
- Não, só li algumas páginas do romance Cristal...
- É é por ali que você tirou a conclusão de que sou um humorista? - me irrita um pouco a palhaçagem, mas logo recuo, para não parecer ridiculamente importante. E não há, sabemos, nada mais ridículo do que se supor importante...
- O livro me parece terrível. A personagem central, a Velha, é só angústia e desesperança - continuo, carregando nas duas últimas palavras e forcejando um ar grave, meio fatal.
Quem me visse, o telefone sem fio na mão, o gorro de tricô afundado abaixo das orelhas, neste outono siberiano de Curitiba, andando de um lado para o outro, diria tratar-se da Gertrud Stein, reencarnada no quintal suburbano da Vila Tingui. Na tarde gris nenhum assomo de sol ou passarinho.
- Terrível? Certo que não li nem dez páginas do livro, mas aquilo me parece uma pândega! E depois quem realmente se decidiu por seu nome, não fui eu, foi o editor do jornal e este leu tudo que o senhor escreveu. E me garantiu, ao passar a pauta, que não havia nada de mais hilário no sul do Brasil que a sua literatura...
Pensei, desta vez, escapar em definitivo:
- Como? Que absurdo? E o Luis Fernando Verissimo? Ele sim, é um gênio, o maior, o me...
Me cortou rente o estudante de São Bernardo, sem imaginar jamais que, um pouco cansado, eu já tivesse me permitido sentar num banco que tenho no quintal, entre as couves e as margaridas. Agora sim, agora eu era a Gertrud Stein, puxando a barra do roupão para que me cobrisse as pernas - embora vestidas, friorentas.
- Delimitemos as coisas, delimitemos - atalhou, meio afetado, o rapaz.
- Luis Fernando Verissimo não é um humorista, ele é um cômico. Humorista é o senhor.
- Mas eu? Eu, humorista?... - devo ter feito um ar de nojo.
- Não foi o senhor que editou aquele jornal, o Nicolau? Aquilo não era um jornal de humor, com tiras e quadrinhos cômicos, inclusive?
- Bem, depende do ponto de vista... Eu não o classificaria deste modo... - disse, humilde, e quase trágico, no esforço de que, convencido de que eu não era a pessoa apropriada, desistisse. Pena ainda não exista o videofone - se me visse, a cara grande e compungida, os olhos que parecem crescer quando me aborreço, o estudante não se furtaria em dizer que eu era a pessoa mais triste deste mundo.
- Olha, seo Wilson, igual aquela Velha, do seu livro, nem na Praça é Nossa... Com o acréscimo de que o senhor escreve sofisticado e só insinua a graça...
E súbito, como se tivesse soado um alarme, o estudante de São Bernando interrompe o telefonema, explicando que venceu o seu turno, trabalho voluntário, sabe como é?, na redação do jornal universitário, e não sem antes dizer do enorme prazer em ter falado comigo, avisa-me que passará a ligação para outro estudante de São Bernardo do Campo.
Na iminência de desligar o aparelho na cara de um ou de outro, não importa, o outro estudante é uma estudante e, esbaforida, o ar de quem chegou atrasada, a voz excessivamente aguda, fulmina:
- Olha, seo Wilson, eu li inteirinho e quase morri de rir com o seu Mar Paraguayo, sobretudo quando a gente vê, nítido, a hora em que a marafona guaratubense mata o velho... E então tudo acertado com o André?
- Tudo, tudo acertado - minto, torvo, trombudo. Um arrepio percorre-me dos pés à cabeça, não sei se de frio ou alívio. Desligo o telefone e o ponho em stand by para secretária eletrônica.
Na passagem da sala ao escritório há um espelho e nele me vejo de relance - os olhos vermelhos. Ao tomar demoradamente uma xícara de café na cozinha, depois do telefonema, devo ter chorado, acho que sim.





