Agradar e copiar, caminhar e ter presença
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 05 de setembro de 2000
Rubens Pileggi Sá De Londrina Especial para a Folha2 
Nesta época de aparências e embalagens, em que parecer agradável se transforma em normalidade, como se tudo estivesse bem, em que responsabilidade e compromisso são confundidos com dificuldades insolúveis de se transpor, questionar e propor o debate das idéias é a forma mais apropriada para nos livrar da dependência política, econômica, psicológica e comportamental que foi imposta sobre nossos corpos e nossa consciência e, assim, ficarmos livres para escolher nossos próprios caminhos.
Desde o início dessa história os povos que aqui viviam foram enganados sobre a intenção, de fato, dos homens e idéias que chegavam com a lábia e a sífilis e levavam embora a riqueza desta terra, em nome de Deus e da coroa.
Não se trata de defender uma visão xenófoba ou nacionalista em relação a outros povos. O outro também somos nós. Mas é preciso entender o que se passa para desmontar e saber incorporar o discurso alheio. Por isso a idéia de devoração crítica elaborada pela antropofagia continua tão atual, apesar de ter sido elaborada no começo do século 20.
Não podemos continuar reduzindo a uma questão de gosto a produção e o consumo das imagens, simplesmente copiando as formas de um padrão cuja referência em nada nos diz respeito, desconhecendo sua origem e sem, ao menos, nos perguntar o porquê de sua existência. Trocar de Deus ou de roupa tornou-se sinônimo; o importante é ganhar status.
Copiamos as atitudes, o comportamento e o jeito de fazer o alheio, como se fôssemos resultado do mesmo destino histórico, social e geográfico. Negamos, assim, nossa própria formação eclética, pluralista, diversificada e integradora. Aqui, o caldeirão das raças de que nos falava Oswald de Andrade. O buraco quente das favelas no país. O buraco do Foda da louca Jardelina, que sai pelas ruas da pequena Bela Vista, com criações originalíssimas, fazendo seus discursos apocalípticos.
Como nas religiões afro-brasileiras, é preciso aprender a incorporar. É o que ensina também a arte dos anos 60 e 70, particularmente a do grupo Neoconcreto, surgido no Rio. E também artistas com Antonio Manuel, que em 1970, em um gesto ousado, desafiou o circo das artes, no Museu de Arte Contemporânea do Rio, ficando nu dentro do museu, na noite de inauguração de um salão de arte que havia rejeitado seus trabalhos para a exposição. Seu gesto-protesto-performance intitulado O Corpo é a Obra ajudou a nos devolver esta noção de corporalidade, de territorialização de um espaço que estava esgarçado e se transformou em mais do que um objeto de arte, mas em um símbolo de resistência contra a ditadura da época, que proibia a expressão do livre pensamento.
Se nos Estados Unidos e na Europa surgiram movimentos importantes para a história da arte, em nada o Brasil ficou devendo em termos de criatividade e invenção; ou se tornou dependente deles por causa disto. Continuamos usando o próprio corpo para definir o território onde a arte deve habitar. Aqui, o samba de morro, o sol tropical, a Tropicália, o acolhimento de todas as raças, de todos os credos. Este é o sumo, a essência do que temos a oferecer ao mundo, aceitando o que vem de fora, mas com crítica e reflexão. Sabemos que tem EU, no meio de Deus.
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