‘Agostinho’: filme londrinense resgata ícone da bossa nova
Dirigido por Ney Inácio, o longa leva a trajetória de Agostinho dos Santos para a telona do Cine Villa Rica neste sábado (25); entrada gratuita
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 24 de outubro de 2025
Dirigido por Ney Inácio, o longa leva a trajetória de Agostinho dos Santos para a telona do Cine Villa Rica neste sábado (25); entrada gratuita
Pamela Destacio/ Especial para a FOLHA 

O 27º Festival Kinoarte de Cinema chega ao seu terceiro dia de programação destacando o único longa-metragem de um londrinense na mostra: “Agostinho - a Voz Suave que Encantou o Brasil e o Mundo”, dirigido pelo jornalista Ney Inácio. O documentário realiza um resgate histórico de uma das vozes mais marcantes do País entre as décadas de 50 e 60.
Com direção musical de Thiago Marques Luiz, a obra chegou a ser exibida em São Paulo (SP) em agosto deste ano, em sua pré-estreia. Agora, chega oficialmente a Londrina, na telona do Cine Villa Rica, onde Inácio cresceu como espectador. A sessão acontece neste sábado (25), às 16h30, com entrada gratuita e livre por ordem de chegada.

RESGATE HISTÓRICO
“Agostinho” traça um panorama da trajetória de Agostinho dos Santos, intérprete consagrado pelo sucesso “Manhã de Carnaval” e voz de “Orfeu Negro”, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1959. O documentário recupera a memória do artista paulistano, que teve a carreira interrompida precocemente em um acidente aéreo em 1973, após marcar a era de ouro do rádio, o cinema e os primeiros passos da bossa nova.
Em entrevista à FOLHA, Inácio conta que iniciou o projeto em 2022, ao perceber que não havia nenhum registro audiovisual dedicado ao cantor e compositor. Após uma extensa pesquisa, feita com o apoio da filha de Agostinho, Nancy dos Santos, ele reconstruiu a história do artista por meio de arquivos, entrevistas e materiais esquecidos.
O diretor localizou parte de seu acervo pessoal armazenada de forma precária no banheiro de um bar, em São Bernardo do Campo (SP), conhecido ponto de encontro de músicos da região. Entre fotografias inéditas e partituras danificadas pelo tempo e umidade do local, o conteúdo foi recuperado e restaurado digitalmente.
Nancy dos Santos é apontada por Inácio como base da pesquisa e fio condutor de todo o projeto. Ela faleceu em 2020, antes de assistir à estreia ou mesmo ver a produção da obra, mas o filme é dedicado à sua memória.

VOZES QUE CONTAM
O documentário reúne depoimentos exclusivos de nomes fundamentais da música popular brasileira, que conviveram com Agostinho dos Santos ou foram influenciados por ele, como Toquinho, Sérgio Mendes, Martinho da Vila, Marcos Valle, Roberto Menescal e Milton Nascimento – em uma de suas últimas entrevistas antes do diagnóstico que comprometeu sua saúde –, além de Alaíde Costa, Edith Veiga, Moacyr Franco, Agnaldo Timóteo, Claudette Soares e Ângela Maria. O filme empresta palavras e sentimentos de Elis Regina, gravados anos antes de seu falecimento, em 1982. Pesquisadores como Ruy Castro e Zuza Homem de Mello também contribuem com a obra.

Por meio dessas vozes, “Agostinho” reconstrói a relevância artística do cantor, além de seu papel simbólico como figura de resistência e representatividade negra em uma época marcada pelo racismo e pela invisibilização de artistas pretos na música brasileira. O resultado é um retrato íntimo e coletivo de quem ajudou a moldar a MPB, os sambas-canções e a própria identidade sonora do País, ao mesmo tempo em que preserva a memória de todos aqueles que participaram.
MEMÓRIA AFETIVA
Além do resgate histórico, o filme também nasce de uma relação afetiva entre o cineasta e o personagem. Aos 70 anos, Inácio conta que ouviu Agostinho dos Santos pela primeira vez ainda na infância, quando morava na Vila Brasil, um dos primeiros bairros de Londrina. As lembranças das tardes de cinema de rua e das canções que tocavam nas rádios dos vizinhos o acompanharam pela vida e serviram de ponto de partida para o projeto.
“Tudo isso me veio à memória. A ideia me pegou pelo coração, pela memória afetiva, pelos tempos de criança, pela minha família”, relembra. “Quando percebi que não existia nada sobre o Agostinho, pensei: é isso que eu quero fazer. Se ninguém nunca fez, por que eu não posso? O tal do desafio é uma delícia.”
Essa não é a primeira vez que Inácio dedica seu olhar a um artista brasileiro colocado à margem da lembrança. Entre outras produções, ele também dirigiu “Leny, A Fabulosa”, documentário de 2015 que reviveu a talentosa Leny Eversong, cantora paulista que brilhou nos Estados Unidos nos anos 1950, mas que morreu quase anônima no próprio país.

KINOARTE
A sessão integra o 27º Festival Kinoarte de Cinema, que teve início nesta quinta-feira (23) e segue até o dia 2 de novembro. O evento é uma produção do estúdio de criação Leste e da Kinoarte, com patrocínio da SMC (Secretaria Municipal de Cultura), via Promic (Programa Municipal de Incentivo à Cultura), apoio da Secretaria de Estado de Cultura do Paraná, por meio do edital Paraná Festivais, e recursos da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura), do Ministério da Cultura.
SERVIÇO
27º Festival Kinoarte de Cinema –
“Agostinho - a Voz Suave que Encantou o Brasil e o Mundo”, dirigido por Ney Inácio
Quando: neste sábado (25), às 16h30
Onde: Cine Villa Rica (Rua Piauí, 211 - Bloco Cinema - Centro)
Quanto: gratuito, por ordem de chegada
Classificação: livre


