Autor de nove livros e centenas de artigos de análise sócio-política, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, faz sua estréia no gênero romance com ‘‘A Lista de Aílce’’ (Companhia das Letras) Trata-se de um livro de memórias da infância passada em Bocaiúva, no interior de Minas, cidade natal do sociólogo. ‘‘Aílce é minha prima, lá de Bocaiúva’’- esclarece ele.
Por mera curiosidade, Betinho pediu a Aílce uma lista com os nomes das pessoas que conhecera na infância e que já morreram. ‘‘Comecei a me dedicar a pegar essa lista e a me lembrar das minhas memórias de cada uma delas.’’ À medida em que as memórias de infância iam aflorando, Betinho começou a escrever sobre cada um dos mortos. São cerca de trinta personagens, sobre os quais ele narra suas lembranças de criança de forma bem humorada. ‘‘Fui pegando cada morto e ressucitando pela memória infantil’’, conta.
Betinho viveu em Bocaiúva até os cinco anos de idade, mas o livro mostra que guarda uma lembrança bem vívida das pessoas com as quais conviveu. Entre os personagens selecionados pelo sociólogo para o livro, estão alguns parentes, o médico da cidade, os mendigos e até mesmo o trem, ‘‘que era um dos personagens mais importantes porque fazia a ligação de Bocaiúva com o mundo’’.
Sobre as pessoas, Betinho conta casos engraçados como o do médico, doutor Gil, que errava todos os diagnósticos. Da avó, dona Mariquinha, que era muito mandona e pregava o voto feminino. E do avô, que em troca de correspondência com Euclydes Figueiredo, pai do ex-presidente Figueiredo, descobriu o parentesco longínquo entre as duas famílias. ‘‘Escolhi esses personagens pelas belas lembranças que tinha de cada um’’, diz. ‘‘O livro mostra a riqueza humana que uma cidade como Bocaiúva tem.’’
Betinho conta que tinha uma relação estranha com a cidade porque há anos não voltava lá. ‘‘Tinha medo de que ela não existisse mais’’, diz. ‘‘Com o livro, consegui ressucitar a Bocaiúva da minha infância.’’

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