Agora, ela é do pop
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terça-feira, 29 de abril de 1997
Antônio Mariano Júnior 
DivulgaçãoEsqueçam o Consuelo e também os roquinhos e chorinhos. Agora Baby é do Brasil e do pop e do dance . Essa reviravolta toda está em Um (BMG), o novo disco da nova Baby do Brasil, que anda dizendo por aí que quer fazer meio mundo dançar. Tanto que o trabalho, em fase de divulgação nacional, está prestes a ser vertido para o inglês e espanhol. E dá-lhe dance. E dá-lhe sussurros e gemidos que dão ao trabalho uma atmosfera sexy muito embora, às vezes, se pareça um pouco com os urros orgasmáticos de Gretchen. A diferença é que Um é bem produzido, Baby Consuelo, desculpe, do Brasil é uma cantora de extraordinários recursos vocais e seu disco tem lá seus momentos interessantes.
O produtor é o americando Greg Ladanyi, responsável pelo autêntico solavanco dance - ele já trabalhou com Madonna e Dolly Parton. Para honrar o novo sobrenome, Baby buscou o auxílio luxuoso de uma percussão que tem até berimbau - e conta com feras como Marcos Suzano e Ivo Meirelles. No entanto, o resultado não ficou lá essas coisas, não. Poderia ter sido melhor se houvesse uma perfeita cumplicidade do acústico com o tecnológico.
É que na maioria das faixas o sampler fala mais alto e, consequentemente, torna Um um disco aparentemente comum. Desses em que os compradores não estão nem um tiquinho preocupados em ampliar a audição para apreciar detalhes preciosos como os da percussão.
São 10 faixas. Abre com a deliciosa Sexy, Sexy e fecha com a boba Milagres. No meio disso tudo há, por exemplo, boas sacadas como Um, o estilizado Rap em que Baby do Brasil fala de coisas do bem do mal, de Gabriel Pensador, de citações bíblicas e até da ideologia da cosmocracia. Há também a instigante e suingante Baby Toque e a frenética Bárbara, Bárbara em que Baby mostra o que consegue fazer de bonito com sua voz rouca e sensual.
São nas baladas em que miss Brasil consegue arrepiar. A bonitinha Fazendo Charme conta com a participação de Pepeu Gomes tocando viola, guitarras e bandolim. Já em Mil Maneiras, o grande lance mesmo é o vocalise de Baby costurado pela gaita de Milton Guedes. Ambas as músicas são assinadas por Baby e Pepeu Gomes.
Mas há besteiras incríveis. Uma delas é Love Sex Fone em que se sugere um sexo verbal. É o ó. Ah sim, as letras de Um não primam pela delicadeza ou mesmo por inteligentes elaborações. São secas, diretas, feitas para preencher melodias dançantes. Vale, entretanto, dar uma lida ou uma boa ouvida em O jarro em que se fala de um disco voador que teria aparecido para Baby, na Bahia.
Em se tratando de Baby é bem capaz que ela tenha visto o tal OVNI. E, sendo mais jocoso, não é de se duvidar que tenha batido um lero-cabeça-pós-astral com os ocupantes. Se é para dançar, Um cumpre perfeitamente o seu papel. Porém, é um tanto quanto frustrante ver que Baby do Brasil, depois de seis anos sem lançar disco inédito, tenha vindo artisticamente um tanto quanto banal. O que poderia representar uma ousadia soa como comum. A sorte é que Baby - Consuelo, do Brasil ou do Cosmos - não é uma cantora comum.
Mudanças internasSegundo Baby, essa guinada na carreira nada mais é que o reflexo fiel das mudanças internas pelas quais passou nos últimos anos. Tais mudanças vieram à tona depois que ela percorreu os 846 quilômetros do místico Caminho de Santiago de Compostela, em 94, numa caminhada que durou 30 dias. A experiência resultou num livro Peregrina, lançado há pouco mais de um ano.
A caminhada também refletiu no lado artístico. O que fez ela? Pegou todos os seus discos anteriores - entre eles os espetaculares O que Vier eu Traço (78) e Pra Enlouquecer (82) - rumou para Nova York e se pôs a ouvir e a ouvir-se. Descobriu que dentro de si havia um lado pop mais gritante que a roqueira e cantora de sambas e chorinhos. A nova fase nascia e se juntava ao novo sobrenome que nasceu depois que Baby decidiu que Consuelo precisaria ser limpo. Portanto, não há nada de numerologia.
E eis que, em 97, surge Baby do Brasil. Uma jovem senhora de 44 anos, ex-integrante do lendário grupo Os Novos Baianos - filhos legítimos da Tropicália - e que resolveu aparecer na capa de seu dançante disco vestida apenas com uma guitarra. Ou melhor, nua, tendo os cabelos e o braço da guitarra cobrindo as partes mais pudicas.
Enfim, essa é a Baby versão 90. Portanto, é melhor esquecer o rico passado musical - é verdade, tiveram besteiras incríveis mas não muitas - dessa moça que agora quer fazer dançar e dançar e dançar. Então, tá, né?


