DivulgaçãoEsqueçam o Consuelo e também os roquinhos e chorinhos. Agora Baby é do Brasil e do pop e do dance . Essa reviravolta toda está em ‘‘Um’’ (BMG), o novo disco da nova Baby do Brasil, que anda dizendo por aí que quer fazer meio mundo dançar. Tanto que o trabalho, em fase de divulgação nacional, está prestes a ser vertido para o inglês e espanhol. E dá-lhe dance. E dá-lhe sussurros e gemidos que dão ao trabalho uma atmosfera sexy muito embora, às vezes, se pareça um pouco com os urros orgasmáticos de Gretchen. A diferença é que ‘‘Um’’ é bem produzido, Baby Consuelo, desculpe, do Brasil é uma cantora de extraordinários recursos vocais e seu disco tem lá seus momentos interessantes.
O produtor é o americando Greg Ladanyi, responsável pelo autêntico solavanco dance - ele já trabalhou com Madonna e Dolly Parton. Para honrar o novo sobrenome, Baby buscou o auxílio luxuoso de uma percussão que tem até berimbau - e conta com feras como Marcos Suzano e Ivo Meirelles. No entanto, o resultado não ficou lá essas coisas, não. Poderia ter sido melhor se houvesse uma perfeita cumplicidade do acústico com o tecnológico.
É que na maioria das faixas o sampler fala mais alto e, consequentemente, torna ‘‘Um’’ um disco aparentemente comum. Desses em que os compradores não estão nem um tiquinho preocupados em ampliar a audição para apreciar detalhes preciosos como os da percussão.
São 10 faixas. Abre com a deliciosa ‘‘Sexy, Sexy’’ e fecha com a boba ‘‘Milagres’’. No meio disso tudo há, por exemplo, boas sacadas como ‘‘Um’’, o estilizado Rap em que Baby do Brasil fala de coisas do bem do mal, de Gabriel Pensador, de citações bíblicas e até da ‘‘ideologia da cosmocracia’’. Há também a instigante e suingante ‘‘Baby Toque’’ e a frenética ‘‘Bárbara, Bárbara’’ em que Baby mostra o que consegue fazer de bonito com sua voz rouca e sensual.
São nas baladas em que miss Brasil consegue arrepiar. A bonitinha ‘‘Fazendo Charme’’ conta com a participação de Pepeu Gomes tocando viola, guitarras e bandolim. Já em ‘‘Mil Maneiras’’, o grande lance mesmo é o vocalise de Baby costurado pela gaita de Milton Guedes. Ambas as músicas são assinadas por Baby e Pepeu Gomes.
Mas há besteiras incríveis. Uma delas é ‘‘Love Sex Fone’’ em que se sugere um sexo verbal. É o ó. Ah sim, as letras de ‘‘Um’’ não primam pela delicadeza ou mesmo por inteligentes elaborações. São secas, diretas, feitas para preencher melodias dançantes. Vale, entretanto, dar uma lida ou uma boa ouvida em ‘‘O jarro’’ em que se fala de um disco voador que teria aparecido para Baby, na Bahia.
Em se tratando de Baby é bem capaz que ela tenha visto o tal OVNI. E, sendo mais jocoso, não é de se duvidar que tenha batido um lero-cabeça-pós-astral com os ocupantes. Se é para dançar, ‘‘Um’’ cumpre perfeitamente o seu papel. Porém, é um tanto quanto frustrante ver que Baby do Brasil, depois de seis anos sem lançar disco inédito, tenha vindo artisticamente um tanto quanto banal. O que poderia representar uma ousadia soa como comum. A sorte é que Baby - Consuelo, do Brasil ou do Cosmos - não é uma cantora comum.
Mudanças internasSegundo Baby, essa guinada na carreira nada mais é que o reflexo fiel das mudanças internas pelas quais passou nos últimos anos. Tais mudanças vieram à tona depois que ela percorreu os 846 quilômetros do místico Caminho de Santiago de Compostela, em 94, numa caminhada que durou 30 dias. A experiência resultou num livro ‘‘Peregrina’’, lançado há pouco mais de um ano.
A caminhada também refletiu no lado artístico. O que fez ela? Pegou todos os seus discos anteriores - entre eles os espetaculares ‘‘O que Vier eu Traço’’ (78) e ‘‘Pra Enlouquecer’’ (82) - rumou para Nova York e se pôs a ouvir e a ouvir-se. Descobriu que dentro de si havia um lado pop mais gritante que a roqueira e cantora de sambas e chorinhos. A nova fase nascia e se juntava ao novo sobrenome que nasceu depois que Baby decidiu que ‘‘Consuelo’’ precisaria ser ‘‘limpo’’. Portanto, não há nada de numerologia.
E eis que, em 97, surge Baby do Brasil. Uma jovem senhora de 44 anos, ex-integrante do lendário grupo ‘‘Os Novos Baianos’’ - filhos legítimos da Tropicália - e que resolveu aparecer na capa de seu dançante disco vestida apenas com uma guitarra. Ou melhor, nua, tendo os cabelos e o braço da guitarra cobrindo as partes mais pudicas.
Enfim, essa é a Baby versão 90. Portanto, é melhor esquecer o rico passado musical - é verdade, tiveram besteiras incríveis mas não muitas - dessa moça que agora quer fazer dançar e dançar e dançar. Então, tá, né?

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