Letícia Spiller é, como creio ninguém contesta, uma linda jovem. Agora, é a principal vilã da novela das 8, a moça ambiciosa, sem escrúpulos, manipuladora. Para criar a personagem, a linda moça que fez a inesquecível Babalú de ‘‘Quatro por quatro’’ (atualmente em reprise) teve de se converter em morena. Pelo que se informou, para ser vilã é preciso ser morena.
Curiosamente, semana passada, no ‘‘Você Decide’’, a vilã era morena. O episódio interessante mostrava uma mulher que, com o marido preso, tenta seduzir de todos os modos o melhor amigo do esposo.
Na novela das 7, ‘‘Meu bem querer’’, as mocinhas legais, bacanas, sensacionais, direitas, são as loiras. A malvada é a morena, a Edivânia, que chega a engravidar para ficar com o também loiro galã do segundo escalão.
Vão dizer que estou procurando chifre em cabeça de cavalo. Mas, vou além: a musa (chamam até de rainha) das crianças é a loira Xuxa. No mesmo campo tem a Angélica. Como contraponto, havia a Mara, morena e bonita. Mas, onde anda? Penso que foi engolfada pelo conceito (ou preconceito) que parece se estabelecer até mesmo inconscientemente: as loiras são boazinhas, as morenas são más...
Pode ser que isto seja um esforço para compensar os anos de preconceito em relação à loura burra. Também é possível considerar um tipo de resgate depois de décadas de predomínio das morenas e mulatas, as grandes e eternas musas do Carnaval brasileiro. De fato, tão cantadas e decantadas elas foram que para falar bem de uma loira foi preciso uma composição que dizia: ‘‘Lourinha, dos olhos claros de cristal, desta vez em vez da moreninha serás a rainha do meu Carnaval.’’
Bom, então as louras deram a volta por cima e hoje não são burras ou tolas, são as musas das crianças, as boazinhas das novelas, as certinhas. Quanto às morenas, mulatas ou negras, ainda que belíssimas, serão acompanhadas por um certo ar de maldade.
São estereótipos, que quase não são percebidos. Nós os recebemos e os aceitamos, até sem pensar. Forma-se assim, até inconscientemente, uma espécie de preconceito seguramente mais perigoso do que aquele que é expresso e consciente. As mulheres, como os homens, não são bons ou maus porque morenos ou loiros, brancos ou pretos. E é preciso expor este tipo de idéia para evitar que ela atue no chamado nível do inconsciente coletivo, onde podem ser forjadas as mais graves deturpações.

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