Agô, Pixinguinha!
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segunda-feira, 04 de agosto de 1997
Mauro Dias Agência Estado 
ReproduçãoPixinguinha merece todas as homenagens. Tem recebido muitas, no ano de seu centenário de nascimento, de variável qualidade, que vão de edição de discos a séries de espetáculos. Entre as melhores em disco, está Agô, Pixinguinha!, lançamento Som Livre, projeto de Hermínio Bello de Carvalho, que assina a produção artística sob a direção de Aramis de Barros. É gente que sabe do que fala e garante a propriedade do que faz.
São dois CDs, que vêm encaixados na contracapa interna de um livro que traz textos de Sérgio Cabral e de Hermínio Bello de Carvalho, além de um resumo do depoimento dado por Pixinguinha ao Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio, em 1968, e boa coleção de fotos de acervos diversos.
O primeiro CD tem o subtítulo de Sambando, Chorando. São 14 músicas, especialmente gravadas. Chico Buarque, Maria Bethânia, Sérgio Ricardo e Baden Powell são alguns dos participantes. O outro CD, Tocando, Tocando, reúne faixas gravadas por Tom Jobim, Radamés Gnatalli, Água de Moringa, Jacó do Bandolim e pelo próprio Pixinguinha.
Salve! A palavra agô, do título, é uma saudação. Tem quase o mesmo significado do saravá com que o poeta Vinícius, evocando os orixás, saudava seu parceiro Pixinguinha no célebre Samba da Bênção, explica Hermínio Bello de Carvalho, que chama o conjunto dos discos de furdúncio-celebração, ou seja, uma festa popular celebradora. É perfeita a definição.
Os cantores-celebrantes não são pixinguinianos de primeira hora ou serão? Chico Buarque, por exemplo. Pois na partilha de bens da letra de Trocando em Miúdos, avisa: Eu fico com o disco do Pixinguinha, sim?, o resto é seu. Assim, admirador, é magnífico interpretando Lamentos, com o MPB-4. Parte da letra apresentada nessa gravação é diferente da que ficou conhecida: são os versos originalmente escritos por Vinícius de Morais. A partitura chegou ao autor do projeto pelas mãos do cineasta Alex Vianny (a música foi composta para seu filme Mundo Melhor), com a versão da letra referendada por uma fita que estava em posse do pesquisador Ricardo Cravo Albim. É um documento dentro do documento.
VozesNa primeira faixa de Sambando, Chorando, Nana Caymmi derrama dores na pungente versão de Carinhoso (Pixinguinha e Braguinha), com arranjo de Cristóvão Bastos. Alcione canta o samba Mundo Melhor, letra de Vinícius de Morais, e Caetano Veloso atenua o barroquismo dos versos de Rosa numa interpretação intimista.
Num dos melhores momentos do CD, Maria Bethânia canta melhor do que qualquer um que tenha feito a doce Fala Baixinho, letra de Hermínio. A grande Zezé Gonzaga, com o vozeirão em forma, faz duo com o ótimo cantor (que pouco aproveita de si mesmo) Eduardo Dusek em Cochichando (letra de Braguinha e Alberto Ribeiro).
Zeca Pagodinho sai-se magistralmente no maxixe Gavião Calçudo. Superiores são Cristina Buarque e Sérgio Ricardo na interpretação de Vou Vivendo, letra que Hermínio escreveu em homenagem ao bar de São Paulo que fechou as portas recentemente: uma escultura de Pixinguinha recebia os frequentadores e, num desenho de Elifas Andreato, Pixinguinha sentava-se sobre o arco da meia-lua, de sax à mão, saudando a noite.
Os outros intérpretes são Paulinho da Viola (De Mal pra Pior, letra de Hermínio), Ney Matogrosso (Página de Dor), João Bosco (Benguelê/Yaô, ambas escritas com Gastão Viana) e Simone e Baden Powell (Ingênuo, em que Benedito Lacerda aparece como co-autor da música, versos escritos por Paulo César Pinheiro). Na última faixa, o Fundo de Quintal redescobre a chula raiada Patrão, Prenda seu Gado, do trio Pixinguinha, Donga e João da Baiana.
Sons Segundo disco, instrumental: Tom Jobim (Carinhoso), Hermeto Paschoal (Rosa), Radamés Gnattali e a Camerata Carioca (Tapa Buraco), Rafael Rabelo e Paulo Moura (1 x 0), Radamés Gnattali e sexteto, com Edu da Gaita (leitura sem letra de Ingênuo), Baden Powell (Naquele Tempo), entre outros mestres reverenciando o mestre fundador da moderna música brasileira.
Os textos que acompanham o disco esclarecem (se a música não bastasse) esse fundador. A transcrição de trechos do longo depoimento prestado no MIS deixa certo que Pixinguinha foi o primeiro dos arranjadores de orquestra da MPB, criando introduções e modulações orquestrais até então inexistentes: introdutor de instrumentos, criador de linguagem.
Há curiosidades: Pixinguinha diz que chegou a compor música japonesa para espetáculos teatrais e confessa que não era de samba: Isso era terreno do João da Baiana, esquiva-se. Lembra o início da vida profissional, aos 14 ou 15 anos, tocando na Casa de Chope La Concha, no centro do Rio. Fala de seu encontro com Villa-Lobos, de sua vida na casa dos pais, frequentada por músicos e festeira a ponto de ser conhecida como a Pensão Viana, e conta que Carinhoso foi composto como uma polca lenta: Naquela época tudo era polca, qualquer que fosse o andamento; se compusesse hoje, chamaria de choro lento. Em 1917, esclarece, não havia choro, gênero, mas música de choro, ou seja, música para tocar-se de jeito chorado.
O trabalho seria perfeito se o acabamento gráfico tivesse a qualidade da pesquisa e das gravações, tanto as encomendadas quanto as que já existiam. No entanto, há comprometedores erros de edição de texto (perguntas que se repetem em páginas diferentes ou respostas que não terminam na mudança de página) e o álbum desmilingue-se na mão de quem o manipula. No texto entregue à imprensa como apresentação do trabalho, chula raiada vira chuva ralada e instalar explode em estalar, para citar duas grosseiras amostras do descaso que fere a beleza do texto, escrito por Hermínio Bello de Carvalho. Ele não cometeu esses erros e sim quem quer que tenha transcrito suas palavras.
Por descaso, burrice, desinteresse, falta de visão histórica, incompetência, não interessa o motivo, compromete-se um projeto carinhoso e caprichado. A assinatura de uma grande editora de discos, a Som Livre, pertencente ao Sistema Globo, torna ainda mais incompreensível o absurdo. Em seu texto, o jornalista, historiador e biógrafo de Pixinguinha, Sérgio Cabral, lembra que a obra do mestre é bem menos conhecida do que seria desejável e necessário. Por coisas assim, Sérgio Cabral, por coisas assim.


