Agnaldo Rayol volta às origens em novo disco
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quinta-feira, 30 de setembro de 1999
Por Antônio Gonçalves Filho 
São Paulo, 01 (AE) - Agnaldo Rayol completou 61 anos em maio. Acaba de gravar com uma menina de 13 anos, Charlotte Church, que já cantou para o papa e entrou para o Guinness por vender 2 milhões de discos em apenas um mês. O novo CD, "Tormento DAmore" (Sony Music), traz os dois cantando o tema principal da novela "Terra Nostra". Detalhe: uma orquestra sinfônica inglesa com 80 músicos acompanha a dupla fomada por Charlotte e Agnaldo, que começou na época dos vozeirões, passou pelas microvozes da bossa-nova, deixou crescer os cabelos nos anos 60 e chega ao fim do século retomando a cultura de seus pais. O repertório do disco é totalmente composto por canções italianas.
Como Charlotte, que subiu a um palco pela primeira vez aos 3 anos para cantar Ghostbusters, Agnaldo Rayol tinha a mesma idade quando registrou sua voz numa mensagem de Natal, gravada num disquinho de papelão do Departamento de Correios e Telégrafos do Rio. O ano era 1941. Seu tio Edgard acabara de descobrir uma vocação irresistível para ídolo popular no filho do senhor Agnello e de dona Rosita - o patriarca hoje com 90 anos e a mãe, com 86 anos. Como homenagem à mãe calabresa, Agnaldo incluiu no novo disco algumas de suas canções favoritas, entre elas "Santa Lucia" e "Torna Piccina Mia". Língua materna - Charlotte também gravou anteriormente um disco (Voice of an Angel) em homenagem aos ancestrais celtas e gauleses, incluindo ainda música religiosa como o "Panis Angelicus" de César Frank, a "Ave Maria" de Caccini e o "Pie Jesu" de Andrew Lloyd Weber. A comparação entre as duas trajetórias não é gratuita. A língua nos leva de volta às raízes
a um momento particular em que essa ligação parece tão natural como beber ou comer.
Para Agnaldo Rayol, mais do que uma oportuna ligação com a novela sobre imigrantes italianos (Terra Nostra), a integração com a língua de seus pais traduz uma busca pelo real numa época em que tudo é virtual, globalizado. Ela reflete a ânsia de reagir contra a desarticulação das culturas regionais pelo poder uniformizador da Internet. Dito assim, parece que estamos diante de um disco de vanguarda. Não, decididamente não há o mínimo traço revolucionário em "Tormento DAmore".
Ele é o que promete a capa com a inclinada torre de Pisa ao fundo: uma nostálgica compilação lírica sem pretexto ideológico. Mas reveladora. Agnaldo conta que o produtor Charles Skarbek e o arranjador Julian Smith, responsáveis pela faixa de abertura, pensavam que ele fosse um cantor italiano de ópera. "Eu nunca aprendi música, só ouvia os discos de Gigli, Tito Schipa, Caruso, Mario Lanza e Mario del Monaco quando era pequeno". Ecos da ópera - De fato, é possível identificar na gravação do tema de "Terra Nostra" ecos de grandes tenores, assim como uma tentativa do produtor, pianista e compositor Luiz Schiavon de repetir o êxito de compositores neoclássicos como Patrick Doyle, autor das trilhas de Kenneth Brannagh (Henrique V, Hamlet) e gravado até por Placido Domingo. Rayol, modesto, nega que pretenda seguir seus passos, mas acha que sua voz melhorou muito com o tempo. "Parece incrível, mas consigo atingir notas com 61 anos que não conseguia aos 30".
Provavelmente vai atingir também altas notas bancárias com o inevitável sucesso de "Tormento DAmore", mas paixão pelo dinheiro não parece ser a mola propulsora de Agnaldo. Ele lembra que, ao gravar sua última novela, justamente "Os Imigrantes", em 1981, ganhava tão pouco que o autor, Benedito Ruy Barbosa, se arrependeu por não ter matado seu personagem antes, livrando assim o cantor do contrato que o prendeu à emissora por longos oito meses. Agnaldo ri e garante que não será "ressuscitado". Autobiografia - Não foi convidado para atuar em "Terra Nostra"
que prolonga a discussão temática de "Os Imigrantes", em que Rayol interpretava um estudante rico e romântico que morria na Revolução de 32. "Na verdade, foi meu empresário que pediu a Benedito que matasse o Miguel para que eu pudesse fazer shows no interior".
Vivíssimo, Agnaldo Rayol tem outros planos para o futuro. Pretende escrever a autobiografia, em que vai contar como gravou um dos primeiros discos de bossa-nova (o 78 rotações Se Todos Fossem Iguais a Você, de 1958) e lembrar que Ivan Lessa
antes de virar jornalista, trabalhou a seu lado ainda menino (ambos tinham por volta de 12 anos) no filme "Maior Que o àdio". "Acho que o Ivan jamais vai me perdoar por revelar seu passado", ri.
A bem da verdade, o cinema não deu muita sorte a Agnaldo. Morreu na novela da televisão e, para não ter o mesmo destino no filme Agnaldo, "Perigo à Vista", o cantor pagava à gangue de David Cardoso por sua proteção. No tal filme, ele era ameaçado pelo nordestino Milton Ribeiro, que o queria casado com a filha. Agnaldo escapou do casamento e da morte. Hoje, viajando o Brasil de carro (ele detesta avião), completa 42 anos de carreira no Dia da Criança. Cantando.


