Afoxé abre o carnaval de Londrina
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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2003
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
O carnaval de rua de Londrina deste ano terá as bênçãos do orixá Ogum. Isso porque, pela primeira vez, foi formado um bloco de afoxé que irá abrir os desfiles das escolas de samba no sábado e domingo. Os integrantes cerca de 40 pessoas, entre homens e mulheres vão levar para a avenida um pouco da tradição afro através de execução principalmente do ijexá, ritmo ligado à mitologia do candomblé. Foram 40 dias de preparativos, entre pesquisas e ensaios coordenados pelos ogans Edson Logun e Flávio de Ogum, Arundo Terceiro, professor de oficina de danças do projeto Pro-Ranti, e pela ialorixá Ya Mukumby, a mais famosa e respeitada mãe-de-santo de Londrina.
O Afoxé de Ogum segue à risca as tradições afro-brasileiras, ou seja, apenas os homens podem tocar os principais instrumentos de percussão, timbais e atabaques. Às mulheres é permitido tocar apenas instrumentos que não utilizam o couro, como o agogô e abê (cabaças cobertas com contas e que emitem sons percussivos). Chama-se Afoxé de Ogum por ter sua origem no terreiro de candomblé Ilê Axé Ogum Mêge, de Yá Mukumby como manda a tradição, o bloco recebe o nome do santo do dono da casa. ''Qualquer pessoa pode montar um afoxé, mas para manter a tradição afro é preciso estar ligado ao candomblé'', explica a ialorixá. Na passagem do bloco, serão reverenciados, além de Ogum, os orixás Iansã (que também faz parte da casa de santo), Oxalá (que dá cobertura a tudo) e Oxum (divindade ''dona'' do ritmo).
Mukumby explica que para se montar o afoxé é preciso fazer os fundamentos (obrigações) como colocar comida para os santos e batizar os couros dos instrumentos. Sem isso, nem mesmo os ensaios podem começar. É preciso destacar que o afoxé que irá ao carnaval de Londrina terá apenas a parte instrumental, embora o canto possa também ser um ingrediente a mais. ''O que não se permite são as cantorias, os pontos cantados em terreiro'', salienta o dançarino e pesquisador de cultura afro Arundo Terceiro.
Segundo ele, o primeiro registro oficial que se tem de um afoxé é da época da Lei do Ventre Livre, quando os patrões liberavam seus negros para irem a outros engenhos tocando o ritmo. ''Hoje, o afoxé faz parte do ciclo carnavalesco, mas antes essas manifestações eram avulsas, não tinham períodos certos para acontecer'', salienta ele. A Bahia e Pernambuco são os estados em que essa tradição é mais divulgada Maranhão também pode ser citado, embora lá sofra mais influência da umbanda.
Enfim, o Afoxé de Ogum sairá às ruas. Ya Mukumby, faz questão de frisar que o bloco fará sua estréia no carnaval, mas irá participar de outros eventos culturais de Londrina como a Semana da Mulher e na 13º sessão do Fórum Permanente de Cultura do Paraná, em março. ''Nossa proposta é continuar as pesquisas e manter a tradição do grupo'', frisa ela.
Para que pudessem colocar o bloco na rua, os coordenadores conseguiram patrocínio da Sercomtel, através da intercessão da Secretaria Municipal de Cultura que viu com bons olhos o projeto encaminhado pela Associação Afro-Brasileira (AAbra) Ong de Londrina que busca recursos para colocar em prática as propostas ligadas à cultura negra. Com o dinheiro exatos R$ 15 mil , foi possível a compra de roupas (em tons prata, branco e azul marinho, esta última a cor da orixá Ogum), instrumentos (nove timbas, nove atabaques, cinco agogôs e dois abês) e pagamentos dos instrutores de ritmo e som.
A maioria dos percussionistas é formada de Ogans (responsáveis pelos ritmos e cantos de um terreiro), representantes de seis casas de candomblé. ''Mas algumas pessoas não tinham afinidades com o ritmo, e tivemos que ensinar. Com o tempo elas vão se aprimorando'', diz Edson Logun. ''Foi bom porque, com isso, divulgamos a nossa religião'', complementa Flávio de Ogum.
Não é de hoje que existe a vontade de Ya Mukumby montar um bloco de afoxé. Faltava apoio e, principalmente, dinheiro. Essa manifestação já era oferecida em forma de oficina de ritmo e som do Projeto da Raça Negra, Tradição e Identidade (Pro-Ranti), que ela coordena, cuja proposta é o resgate e difusão das tradições afro-brasileiras. Com oito anos de existência, a proposta é ligada à comunidade negra (mas está aberto a todas as pessoas, independente da raça) e atualmente é projeto de extensão da Coordernadoria de Extensão à Comunidade (CEC), da Universidade Estadual de Londrina.
Com o bloco enfim reconhecido, os integrantes se preparam agora para levar as bençãos ao carnaval londrinense. A intenção é manter durante todo o ano os estudos e pesquisas sobre o afoxé para que a tradição se instale de vez na cidade. ''É um grupo que está se iniciando, ninguém é expert mesmo porque a cidade não tem tradição de afoxé. Estamos fazendo o melhor possível, mas sabemos que para que o grupo cresça é necessário muita pesquisa'', diz Ya Mukumby. ''Estamos abertos para todos os terreiros da cidade. E essa manifestação religiosa vem para somar. Não basta apenas boa vontade política, mas também a aceitação da comunidade'', complementa.
Portanto, quem for ao sambódromo poderá fazer coro ao bordão do primeiro e bem-vindo bloco de afoxé: ''Ogum iê...Patucuri, o afoxé vem aí''. E vem com tudo trazendo axé para todos.


