Rio, 23 (AE) - O embaixador Afonso Arinos de Melo Franco comemorou ontem (22) a imortalidade conquistada com a eleição para a Academia Brasileira de Letras (ABL). Ele foi eleito membro ABL num pleito que teve 11 candidatos, mas só dois votados: o diplomata, com 23 votos, e o poeta e tradutor Ivan Junqueira, com 15 votos. Foi uma das eleições mais rápidas da história da academia, pois, em menos de meia hora, foi escolhido o sucessor do filólogo Antônio Houaiss, cuja vaga tem como patrono o jornalista Hipólito da Costa.
Franco, de 68 anos, é filho do parlamentar que propôs a lei contra o racismo, de quem herdou o nome. Advogado, não exerceu a profissão. Foi diplomata de carreira, servindo em Genebra e Porto (como cônsul), La Paz, Caracas, Haia e Vaticano (como embaixador). É também jornalista, colaborando com as revistas "Manchete" e "Fatos & Fotos", com os jornais "Tribuna de Imprensa" e "Correio Brasiliense" e com a TV Educativa do Rio. Além disso, é autor de seis livros. O primeiro foi "Primo Canto, Memórias da Mocidade", lançado em 1976, e o último, sobre o pai, foi lançado este ano, com o título de "Ribeiro Couto e Afonso Arinos - Adeuses".
O diplomata recebeu a notícia da eleição em casa, na Praia de Botafogo, na zona sul do Rio, ao lado da mulher, Beatriz, e dos cinco filhos e nove netos. Pouco depois, chegaram outros acadêmicos para a comemoração. Como bom diplomata, Franco não esqueceu de elogiar Junqueira. "É um grande poeta e tradutor", disse. "Concorrer com o Ivan, a quem prefiro chamar de contendor, dignifica ainda mais minha eleição."
Apesar de ter sido uma das eleições mais concorridas, com 13 candidatos, inicialmente, logo no início, houve a polarização entre os dois votados. O também embaixador Pio Correa desistiu pouco depois de se candidatar. O presidente da Fundação Nacional de Arte (Funarte), Márcio de Souza, oficializou a desistência também pouco depois de inscrito. Os outros candidatos, até mesmo a cabeleireira transexual Rudy, autora de uma autobiografia e de um livro de contos, permaneceram no páreo, mas não cumpriram todas as formalidades da eleição.
Franco seguiu o ritual. "Como diplomata disciplinado, respeito as tradições", explicou, contando que visitou cada imortal para pedir o voto. Ele só não sabe quem lhe pagará o fardão da posse, em data ainda a ser marcada. "Se fosse antigamente, eu ia com o fardão dos diplomatas, mas o Itamaraty aboliu seu uso", contou. Tradicionalmente, quem oferece é o governo do Estado de origem, no caso, Minas Gerais. "Não vou pedir ao meu amigo Itamar Franco (o governador de Minas) porque ele diz que falta dinheiro até para pagar professoras", ressaltou. "Mas confesso que espero um oferecimento dele."

mockup