Afinal, um italiano no páreo pelos Leões
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quinta-feira, 10 de setembro de 1998
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Enviado especial a Veneza 
Já não era sem tempo. A última das quatro esperanças dos donos da casa com vistas à premiação mostrou potencial bem acima da média, e deve sair do Lido com algum prêmio importante. Cos# Ridevano é uma obra sensível que evidencia o talento de Gianni Amelio, o diretor de Ladrão de Criança e Lamerica - Tempo de Chegada. E se inscreve na linha direta de descendência de dois clássicos de Visconti, La Terra Trema e Rocco e Seus Irmãos. É a história de dois irmãos sicilianos, Giovanni (Enrico Lo Verso, já flertando com a Copa Volpi de melhor ator) e Pietro (Francesco Giufrida), migrantes do Sul miserável para o Norte promissor, mais especificamente para Turim, no fim dos anos 50.
O primeiro, mais velho e analfabeto, tem a idéia fixa numa única meta: trabalhar muito e duro para financiar a educação do irmão, que deverá se tornar professor. Giovanni não tem um sonho de riqueza, de dinheiro fácil, de poupança. O objetivo é que ao menos ao outro, a quem ama como filho, não sejam negados os segredos que estão nos livros, na cultura. A idéia fixa é que somente o conhecimento pode resgatá-lo da miséria. O argumento cobre um período que vai de 1958 a 1964, e está dividido em seis capítulos: Chegada, Enganos, Dinheiro, Cartas, Sangue e Família.
É um filme - disse Amelio durante a superlotada e muito cordial coletiva - que fala de uma Itália que não existe mais, para tentar compreender melhor a Itália que vivemos agora. Não é um filme de costumes, mas uma ponte afetuosa entre as gerações num período crucial de nossa existência, quando o país experimentou uma mudança profunda, passando de uma cultura campesina para uma urbana e industrial. Apesar da tentação sempre presente, Amelio não se trai pelo enfoque da nostalgia fácil. Tampouco é um filme socialmente irado ou ressentido, apesar de posta em cena a questão dos desfavorecidos, as dificuldades dos mais fracos e o problema sócio-econômico fruto do movimento migratório dos meridionais para a cidade grande. Irônico em alguns momentos, o filme não deixa de ser a história de uma utopia cultural, de uma obsessão magnífica. Beneficiado por amplos recursos, Cos# Ridevano tem produção impecável, com precisa reconstrução histórica. Falado quase que inteiramente em dialetos do sul da Itália, já está com distribuição interna na Itália com legendas, mas sem dublagem.


