Afinal, 'teens' de carne e osso
Os romances teen chegam invariavelmente às telas ou como comédias cruas e malcriadas, estilo ''American Pie'', ou como franquias de matadouros, em que adolescentes são esquartejados por outros adolescentes em assassinatos seriais. Assim, só para variar um tanto e demonstrar que é possível criar desafios modernos e inteligentes destinados à faixa etária, o ex-ator, veterano da HBO, mas estreante em direção de cinema John Stockwell fez o que seus coleguinhas nem pensaram: dar corpo, vida e alma a personagens-estereótipos, criar conflitos reais, dar substância a impasses sociais e psicológicos. O filme é - pasmem com os títulos, tradução e original - ''Gostosa Loucura'' (crazy/beautiful, assim mesmo, em minúsculas).
Nicole (Kirsten Dunst) é a filha privilegiada de um muito ocupado congressista da Califórnia (Bruce Davison), que casou de novo para recomeçar família depois do suicídio da mãe de Nicole. A frívola madrasta está no mpmento ocupada com um novo filho.
Traumatizada e emocionalmente sozinha, a frágil garota está sempre envolvida em problemas. É a ''bad girl'', no embalo de sexo, drogas e heavy rock. A primeira diferença, para começar: o espectador sabe desses detalhes não através de cenas que poderiam apimentar a história, aumentando a recomendação para 16 anos. Apenas a composição detalhada da atriz resume este quadro, seja na indumentária, seja pela conferência de seu suprimento farmacêutico particular - é balanceado o sortimento químico ao alcance da moça. Que, a propósito, não é a pretendente ideal para o ótimo aluno e talentoso jogador de futebol da escola, o pobre Carlos Nuñez (o estreante Jay Hernandez), um garoto hispano e de um outro mundo, que todo dia pega um ônibus por duas horas e dá um duro danado para frequentar as aulas. E o esperado acontece: a magnética auto-destruição de Nicole encontra a existência consciente de Carlos. Pensou no formulário burocrático, insosso e gratuitamente choroso de sempre? Pois espere pelo melhor.
Os olhos podem deixar a sala escura até vermelhos, mas terá valido a pena. ''crazy/beautiful'' é o filme que se atreve a responder questões duras, pesadas, incômodas. Quase tudo aqui já esteve na tela, mas roteiro e direção trabalharam o ''dja-vu'' com particular talento. Os dois jovens se apaixonam, num romance com evidentes implicações raciais e sociais. É sempre complicado saber porque os dois estão juntos, ou querem ficar juntos. A grande, imensa vantagem do filme sobre as dezenas de títulos que tentam mostrar o que é ter 17 anos - e ter 17 anos é fundamental, com ou sem complicações - é justamente como é construída a relação entre Nicole e Carlos. A dupla de atores está impecável e extrai o máximo dos personagens - o tema experiência-encontra-inocência ganha ânimo novo, um tratamento realístico que a grande maioria evita em favor de genéricas leviandades e convenções na linha ''nerds''.(C.E.L.J.)





