A rigor, todos os dias são extremamente agitados no Festival de Cannes, mas hoje a grade de programação sinaliza com o mais sério congestionamento de títulos, quatro em competição e vários outros classificados como imperdíveis espalhados pelas diversas mostras paralelas. Em boa parte, o problema decorre da complicada engenharia a que os curadores submetem os jornalistas por conta de uma distribuição de filmes que deve atender a mostra competitiva, Un Certain Regard e eventos especiais (Indiana, Woody Allen, etc), num total de 51 filmes alocados em 11 dias - o décimo segundo e último é exclusivamente para o encerramento.
Os 268 minutos do mamute ''Che'' também contribuíram para apertar ainda mais a agenda. Esclarecendo: o que foi visto aqui é a versão ''estendida'' com os dois filmes que Steven Soderbergh realizou, ''O Argentino'' e ''Guerrilha''. Eles não chegarão ao circuito mundial como um filme só, isto já foi descartado por óbvias inconveniências mercadológicas. Na França, por exemplo, serão dois lançamentos com um mês de diferença, em outubro e novembro. E em outros países só no ano que vem.
Muito barulho por nada? Não, não é bem assim. Como história bem contada, sólida, historicamente bem amarrada, o (s) filme (s) se sustenta (m) sem problemas, profissionalismo absoluto, produção precisa (US$ 70 milhões), narrativa clássica. Aliás, excessivamente clássica, bom comportamento geral, o que em certo sentido esmaece as cores do argumento, esvazia maiores expectativas de quem esperava, como a platéia de Cannes, alguma coisa menos burocrática, menos plana, talvez com mais adrenalina, digamos, dialética, se é que me entendem...
A primeira parte, ''O Argentino'', sem dúvida é a melhor resolvida no caudaloso roteiro de Peter Buchman. Trata da epopéia cubana, a tomada de Havana então nas mãos do ditador Batista. Ao lado de Fidel Castro, Ernesto Che Guevara se torna herói da revolução. O filme mescla a ação militar na campanha de Sierra Maestra com o aporte ideológico do Che, seu desprezo pelo imperialismo opressor e sua visão terceiro-mundista inconformada com a miséria e a exploração dos camponeses no continente sul-americano.
Há especial e detalhada referência à sua célebre intervenção nas Nações Unidas, em Nova York, quando discursou em espanhol e responsabilizou os Estados Unidos pela manutenção do status de penúria dos povos da América Latina. Na segunda parte, ele renuncia ao poder, às glórias e às honras da vitória e sai em busca de seu ideal revolucionário até encontrar a morte, na selva boliviana. Em nenhum momento qualquer dos dois filmes se refere à atual situação política de Cuba.
Tão prolífico quanto inclassificável, Steven Soderbergh, 44 anos e 17 longas em menos de duas décadas, o cineasta dos treze homens e vários segredos e detentor de uma Palma de Ouro em Cannes em 1989 por ''Sexo, mentiras e videotape'', sempre foi um obcecado pelo Che. Seu enfoque, reverencial e respeitoso em demasia, talvez se explique pelo que ele disse na coletiva ontem aqui em Cannes: ''Quis consagrar um filme ao Che não somente porque sua vida é um romance de aventuras, mas porque sempre fui fascinado pelos desafios técnicos decorrentes da aplicação, no cinema, de uma visão política de grande envergadura. Quis ilustrar detalhadamente os esforços físicos e psicológicos que foram empregados nas duas campanhas. E mostrar o processo pelo qual um homem, dotado de vontade indomável, descobre sua capacidade de inspirar e liderar outros homens''. Sim, esta vontade e esta capacidade nunca foram segredo. O que queríamos era algo mais, mas não do mesmo. E nisso o filme frustra.
Benício Del Toro é espantosamente o Che redivivo. Sua atuação, mesmo iconograficamente servindo ao mito, é feita de carne e osso, de sangue, suor e ideologia segundo reza a cartilha. E como o roteirista Buchman e o diretor Soderbergh preferiram se ater mais à ilustração da história oficial do que a qualquer informação controvertida, o ícone permanece intacto. Mas também não deverá incrementar a fabricação de mais boinas ou t-shirts. Rodrigo Santoro está duplamente nas telas de Cannes: no argentino ''Leonera'' e aqui na primeira parte, como Raul Castro, irmão de Fidel e atual dirigente de Cuba.
O Brasil se despediu das principais mostras do festival com a exibição de ''A Festa da Menina Morta'', ontem no Certain Regard. A estréia na direção do ator Matheus Nachtergaele foi bem recebida pela platéia que lotou a Sala Debussy e ao final aplaudiu muito o diretor, atores e equipe técnica que vieram a Cannes. O filme, com ressonâncias glauberianas, é o retrato a um só tempo realista e alegórico de um certo Brasil que sobrevive nas brumas da ignorância, cultivando suas crendices mais populistas, neste caso nos confins da Amazônia.
O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Cannes

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