Integrantes originais já deixaram o grupo, mas outros músicos mantêm a afinação dos Demônios
Era fevereiro de 1943 quando um grupo de garotos do bairro paulistano da Moóca decidiu montar um conjunto musical. Comandados por Arnaldo Rosa, o mais velho da turma e que tinha apenas 15 anos, formaram o Grupo do Luar. Começaram a animar festas e se dedicar a serenatas noite adentro. A primeira apresentação num concurso de calouros foi no programa A Hora da Bomba, da Rádio Bandeirantes. Ganharam o primeiro lugar e, de quebra, assinaram um contrato com as Emissoras Unidas (Bandeirantes, Record, Panamericana e São Paulo).
O Grupo do Luar fazia sucesso, mas o nome não agradava ao radialista Vicente Leporace. Ele achava que a palavra ‘‘grupo’’ dava a idéia de jogo do bicho. Sugeriu então que fosse dado um novo nome ao conjunto e pediu para que os ouvintes participassem da escolha enviando cartas à emissora. Entre centenas delas, uma chamou a atenção pela originalidade. ‘‘Demônios da Garoa’’ era um nome perfeito para o grupo, já que seus integrantes tocavam muito bem e vinham de São Paulo, a cidade da garoa. ‘‘Além do mais, eles agitavam o público. Eram realmente demoníacos’’, lembra o produtor Odilon Cardoso.
O primeiro disco saiu em 1950. Um 78 RPM, com o balanço ‘‘Siri Malvado’’, de Jair Gonçalves, e o maracatu ‘‘Rio Verde’’, de Antonio Diogo e Juraci Rago. Um ano depois, gravavam pela primeira vez uma música de Adoniran Barbosa, ‘‘Malvina’’, que foi campeã do Carnaval daquele ano. Em 52, gravaram a segunda ‘‘Joga a Chave’’, também campeã do Carnaval, e nos anos seguintes todas as outras músicas compostas por Adoniran, inclusive os clássicos ‘‘Trem das Onze’’, ‘‘Samba do Arnesto’’ e ‘‘Saudosa Maloca’’ - estas duas últimas ficaram um ano na parada de sucesso, uma raridade na época. Os Demônios gravaram 26 discos de 78 RPM e dezenas de LPs e CDs.
Passadas quase seis décadas, os Demônios da Garoa continuam sendo um dos melhores conjuntos vocais do Brasil. Com suas vozes afinadas, eles mantêm o tradicional estilo, cantando boas e velhas canções, a maioria composta por Adoniran Barbosa, e falando do cotidiano de São Paulo de maneira bem-humorada. O grupo ainda é formado só por músicos paulistas, mas está de cara nova.
Da formação original, resta apenas Toninho Gomes, violonista tenor, terceira voz e hoje percussionista, que está afastado por causa de uma cirurgia no pé, consequência do diabetes. Outro fundador do grupo, o crooner Arnaldo Rosa deixou o conjunto recentemente, aos 71 anos, com um grave problema na coluna. Há 28 anos no Demônios, Roberto Barbosa, o Canhotinho, foi forçado a tirar férias para colocar três pontes de safena no coração. A previsão é que em dois meses o sucessor de Waldir Azevedo já volte a dedilhar seu cavaquinho.
Filho de Arnaldo, o pandeirista Sérgio é o ‘‘demônio’’ da nova geração que está a mais tempo no grupo, 12 anos. Simbad (violão seis cordas e cavaquinho), filho de Toninho Gomes, completou dez. Um velho integrante voltou a fazer parte do grupo. Izael (timba) participou alguns anos do conjunto na década de 80. Saiu para acompanhar um trio na Arábia Saudita e está de volta há cinco meses. O maestro Marco Antonio, sobrinho de Artur Bernardo (fez parte da primeira formação), é o tecladista há seis meses. O mais novo membro dos Demônios da Garoa é Valter (violão sete cordas), que está no grupo há apenas quatro meses. (A.C.)

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