Afinado com os grandes músicos
Jackeline Seglin
Ele está na profissão há quase 50 anos. O afinador pernambucano de pianos José Gomes da Silva transitou entre grandes nomes da música, mas o que lhe garantiu uma referência de peso foi o tempo em que trabalhou diretamente com o compositor e maestro Tom Jobim - aliás, um dos homenageados do 19º FML juntamente com o compositor Frederic Chopin. É muita emoção. Fico feliz do Festival fazer uma homenagem merecida a Antonio Carlos Jobim, que foi meu amigo durante tantos anos, declara.
No Rio de Janeiro, onde morou até o início da década de 90, Gomes trabalhou com vários outros nomes famosos, como Arthur Moreira Lima, Arthur Brasil, Nelson Freire, Fernando Lopes, Antonio Guedes Barbosa e Arnaldo Cohen.
Com o tempo, o afinador adquiriu o domínio da técnica. Nas mãos, uma chave especial e um diapasão - sem esquecer as ferramentas auxiliares de regulagem, que acertam o mecanismo de toque e repetições dos martelos. Duas horas e pronto: o instrumento está afinado.
O pernambucano veio para o norte do Paraná aos sete anos de idade. Os pais eram afinadores de instrumentos musicais (acordeon, órgão e piano) no Nordeste. Vim para ser agricultor perto de Nova Esperança e, na década de 60, sempre viajava para Londrina, lembra. Na adolescência, a virada. O pai de José Gomes conheceu um técnico de pianos, dono de uma oficina em São Paulo. Meu pai pediu que o Max me ensinasse a profissão e ele me adotou como aprendiz, revela. Na época, ele tinha 13 anos.
Ao lado do professor, aprendeu muita coisa durante 18 anos. Ele me ensinou tudo. E quando faleceu, a oficina acabou, diz. Mas o rapaz não voltou para casa e foi parar no Rio de Janeiro pelas mãos do pianista Jacques Klein, diretor da Sala Cecília Meirelles, que o indicou para trabalhar na Secretaria de Estado da Cultura. Fui afinador da Orquestra Sinfônica Brasileira por 12 anos e no início da década de 80 comecei a prestar serviços para gravadoras, conta.
Foi nesse período que José Gomes conheceu na PolyGram (atual Universal Music) o maestro e compositor Antonio Carlos Jobim. Fui afinar o piano para uma gravação e ele me convidou para trabalhar com os pianos na sua casa, relembra. O contato entre o pernambucano e o músico foi se estreitando cada vez mais.
José - ou Zé Gomes, como Tom Jobim o chamava - conta que fazia a afinação dos pianos em shows e na casa de campo em Teresópolis, além de viajar com o músico nas turnês. Ficamos amigos e isso se estendeu até os últimos dias da vida dele. Quando ia à casa de Tom para trabalhar, ele vinha bater papo e a gente tomava até cafezinho na cozinha. Foram 16 anos muito gratificantes, conta.
A rotina de José Gomes hoje em dia é outra coisa. Como passou a infância no Paraná, foi para Londrina que ele resolveu voltar em 1991. Já casei meus três filhos, no Rio, e fiquei só com minha mulher. Resolvemos então buscar a tranquilidade do interior.
Em tantos anos de profissão, Zé Gomes também dedicou um tempo ao aprendizado musical. Ele é pianista e espera traçar uma nova trajetória como músico em Londrina - mas nem pensa em deixar de afinar pianos. Nos meus 60 anos, sinto muita saudade da convivência com os grandes músicos, relata.
A lacuna logo foi preenchida. Há cinco anos ele é o afinador do FML, fato que possibilitou o reencontro com velhos conhecidos. Isso me surpreendeu, porque tenho tido contato com grandes pianistas, com os quais trabalhei no Rio, como o Nelson Freire, o Arnaldo Cohen e o Fernando Lopes, resume.Afinador oficial de pianos do FML há cinco anos, José Gomes da Silva prestou serviços a gente de peso como Tom Jobim
Dorico da Silva e ReproduçãoJosé Gomes da Silva afinando um dos pianos do FML. Sua profissão passou a ser mais valorizada quando tocou com o maestro Jobim, de quem acabou ficando amigo. Abaixo, um certificado assinado pelo maestro brasileiro atestando a excelência do seu trabalho





