Afinado com o público
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 16 de março de 2009
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Um afinado projeto que está regendo a vida cultural maringaense também desmistifica o repertório erudito como um produto de consumo restrito. Criado há quatro anos, o ''Convite à Música'' abriu caminho para o ''Convite à Dança'' e ''Convite ao Teatro'' e conquistou o público, que tem lotado as salas de apresentações.
O ''Convite à Música'' foi inspirado no trabalho de Sumiko Miyamoto. A missionária japonesa chegou a Maringá na década de 50. Além de uma escola infantil, do Lar de Cristo Luzamor, onde viveu os seus últimos dias, construiu o Auditório Shizuko Miyamoto - Luzamor para colocar em prática o pensamento: ''Não basta ensinar a música, é preciso também ouvir boa música''.
A ideia está se propagando e vibra a emoção de pessoas como o arquiteto Marcelo Barini, 26 anos, que fez, na última quinta-feira, sua estreia na plateia do Auditório Luzamor ao assistir ao concerto do paulistano Aulus Trio.
O grupo, formado pelos irmãos Fábio (violino), Mauro (violocelo) e Paulo Brucoli (piano), apresentou aos maringaenses um repertório composto por Heitor Villa-Lobos (1887-1959), Serguei Rachmaninoff (1873-1943), Astor Piazzola (1921-1992), e uma característica musical rara de interpretação e execução, já que os integrantes cresceram sob as mesmas influências.
Todos os concertos e espetáculos dos três projetos têm entrada gratuita e apresentações semanais, sem interrupção no período de férias. ''Acredito que projetos como esse têm tudo para dar certo. Acho que Maringá está investindo muito na área cultural, tanto no teatro, como música e dança'', avalia Barini.
O boca a boca é a melhor propaganda dos projetos, que começaram com uma tímida participação do público. Alguns dos primeiros espetáculos foram assistidos por plateias de no máximo uma dezena de pessoas. Porém, os que aceitam o convite, como a engenheira Aline Lisot, 28 anos, se encarregam de adicionar novos amigos a essa comunidade cultural. ''Acho uma grande oportunidade para as pessoas que admiram música. Venho com frequência aos concertos e percebo que o público vem crescendo. Quem assiste uma vez acaba voltando'', comenta Aline.
Com investimento de R$ 120 mil, o ''Convite à Música'' recebeu nos quatro anos de execução um público de 40 mil pessoas. O ''Convite à Dança'', iniciado em 2006, e o ''Convite ao Teatro'', que começou no ano passado, contam com apoio de patrocinadores e um público de 18 mil e 1.500 pessoas, respectivamente. Uma delas é o designer Fabrício de Moraes, 26 anos: ''Considero esses projetos uma ilha de cultura, trazendo coisas que não viriam para Maringá''.
Jornalista com atuação na área cultural, Rachel Coelho afirma que os projetos estão alcançando o objetivo de ajudar na formação de público. Ela aponta que, hoje, algumas pessoas são fiéis à programação. Só falta o empresariado local abraçar a proposta.
A secretária de Cultura de Maringá, Flor Duarte, constata que o público está se tornando mais exigente e que o ''Convite à Música'' começa a quebrar tabus relacionados ao repertório erudito. ''Estamos recebendo proposta de músicos do Brasil inteiro interessados em participar do projeto. Com os recursos destinados pela prefeitura pagamos o cachê dos artistas, produzimos o material de divulgação e os programas dos concertos. Na programação já tivemos um grupo da Alemanha, que ficou impressionado com a grande quantidade de jovens na plateia. Estamos desmistificando que música erudita é para pessoas velhas ou de elite. É preciso qua as empresas apoiem projetos como esses. Acho que o Brasil ainda não entendeu a importância do patrocínio cultural. O retorno não é direto, mas a marca fica associada no inconsciente porque permanece na emoção. No momento em que você vai buscar um serviço essas empresas soam mais simpáticas.''
'Projetos como esse têm tudo para dar certo', acredita o arquiteto Marcelo Barini
'Acho uma grande oportunidade para as pessoas que admiram música; quem assiste uma vez acaba voltando' comenta Aline
Para a jornalista Raquel Coelho, só falta o empresariado local abraçar a proposta
'Estamos recebendo propostas de músicos do Brasil inteiro interessados em participar do projeto', comemora Flor Duarte


