Afeganistão: sob o domínio do medo e a ameaça às mulheres
País passa por mudanças políticas, sociais e culturais com a retomada do poder pelo grupo Taleban depois de 20 anos; mulheres são as que mais temem por seus direitos
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de agosto de 2021
País passa por mudanças políticas, sociais e culturais com a retomada do poder pelo grupo Taleban depois de 20 anos; mulheres são as que mais temem por seus direitos
Marcos Roman - Grupo Folha 

Sob o domínio do Taleban, grupo de extrema direita que voltou ao poder depois de 20 anos, o Afeganistão começa a passar por uma série de mudanças na área política, econômica, social e cultural. Além da expulsão de estrangeiros e das mortes de civis causadas durante o conflito gerado na retomada do comando que aconteceu no último final de semana, as preocupações se voltaram para as mulheres afegãs. As moradoras do país oriental devem voltar a sofrer as mesmas restrições impostas a elas pelos extremistas na década de 1990. Com base na leitura que fazem do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos, os guerrilheiros determinaram que as moradoras locais estavam impedidas de sair de casa sem a companhia de um homem, o uso da burca se tornou obrigatório e toda a população feminina foi proibida de estudar e trabalhar.
“Estou profundamente preocupada com as mulheres afegãs” declarou Malala, famosa ativista paquistanesa que ganhou o Prêmio Nobel em 2014. Ela passou a ser um símbolo na luta contra o Taleban após ser vítima de um atentado enquanto estava indo para a escola. Na época, a menina de 14 anos foi atingida por um atirador mascarado que pertencia ao grupo extremista. Socorrida, ela foi acolhida pela Inglaterra, onde recentemente se formou em Ciências Políticas e anunciou que pretende voltar ao seu país para continuar lutando para que as mulheres tenham o direito de estudar.
Na avaliação do jornalista Ariel Palacios, comentarista da Globo News, a preocupação mundial em torno das mulheres que vivem no Afeganistão faz sentido devido à misoginia (ódio ou aversão às mulheres) demonstrada pelo Taleban“Eles são extremistas religiosos, a favor das armas nas mãos do povo, homofóbicos, misóginos e negacionistas da ciência. Como podemos ver, esse é um coquetel teocrático provinciano, supersticioso, totalitário e primitivo que estamos vendo”, salienta.
“Dentre todos os prejudicados pela volta do Taleban ao poder é difícil elencar alguém que sofra, que vá sofrer ou que esteja sofrendo mais do que as mulheres. É basicamente o pior cenário possível para uma mulher no planeta como um todo", enfatiza Tanguy Baghdadi, professor de Política Internacional no Rio de Janeiro e fundador do podcast Petit Journal.
Ele acrescenta que o retorno do Taleban ao poder não representa uma ameaça apenas ao povo que vive no Afeganistão e em outros países do oriente. “Inegavelmente, a volta do Taleban ao Afeganistão é uma ameaça ao ocidente. Importante lembrar que o Taleban é um grupo que tem uma aliança histórica com a Al Qaeda. Então a gente tem a junção de um grupo que é o Taleban com um poder local muito bem determinado e que tem uma aliança com o grupo terrorista que tem projeção global, que pode representar um risco maior para os países do ocidente”.

PARCERIA COM OS EUA
O Taleban foi fundado em 1994 por Mohammad Omar, que reuniu ex-guerrilheiros para lutarem contra a ocupação da União Soviética no Afeganistão. Naquela época, o grupo contou com apoio dos Estados Unidos, que foi responsável pelo treinamento dos combatentes e pela distribuição de armas e equipamentos entre eles na guerra contra o inimigo em comum.
Dois anos após a retirada das tropas soviéticas, o Taleban tomou o poder no Afeganistão em 1996, criando um emirado islâmico e espalhando medo e terror entre a população local. Todos os homens foram obrigados a deixar a barba crescer e as mulheres foram forçadas a se cobrirem com burcas, não podiam sair de casa sozinha, nem trabalhar ou estudar. Os afegãos foram proibidos de ter qualquer tipo de contato com o ocidente, sendo punidos com amputações e execução em praça pública aqueles que descumprissem as regras estabelecidas pelo grupo extremista.
O jornalista Ariel Palacios explica que o Afeganistão sempre sofreu interferências externas: "Saíram os soviéticos e depois entraram os americanos. Ambos complicaram a situação de um país que já tinha seus próprios problemas internos. O Afeganistão não era um país rico em petróleo nem em minerais. Menos ainda em agricultura. No entanto, está numa posição estratégica, perto do Índico, ao lado da China e encostado no Irã. O império russo e o império britânico já haviam disputado a influência sobre o país no século XIX", diz.
Os conflitos atuais no Afeganistão tiveram início após a queda das Torres Gêmeas que aconteceu nos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001. “Os atentados nos Estados Unidos foram feitos pela Al Qaeda, mas contaram de fato com uma grande colaboração do Afeganistão, que naquele momento era governado pelo Taleban. O Taleban tomou o poder no ano de 1996 e permaneceu até que os Estados Unidos invadiram o país no ano de 2001. A Al Qaeda é um grupo não estatal, ou seja, não tem um território onde possa ser encontrado. Ao passo que o Taleban, como grande aliado da Al Qaeda, podia ser encontrado no Afeganistão. Então, a resposta mais imediata dos Estados Unidos foi invadir o Afeganistão para acabar com a possibilidade que a Al Qaeda tinha de continuar fazendo treinamento militar, recrutamento e planejamento de novos atentados a partir do território afegão e com isso portanto também empreender uma caçada à Osama Bin Laden, que foi o mentor e o líder dos atentados que atingiram os Estados Unidos em 2001”, explica o professor de Política Internacional, Tanguy Baghdadi.
O MAIOR TERRORISTA DE TODOS OS TEMPOS
Baghdadi afirma que Bin Laden não foi caçado por uma questão ideológica. “Ele foi caçado por uma questão criminosa. O Bin Laden de fato empreendeu, liderou um movimento terrorista que atingiu os Estados Unidos de maneira bastante dura. Aliás, o 11 de setembro não foi a única vez que isso aconteceu. Houve um atentado também contra o World Trade Center no ano de 1993 que não teve o resultado que a Al Qaeda esperava. E vários outros atentados promovidos em diversos lugares, como nas embaixadas americanas, atentados contra civis no Iraque e contra a sede da ONU em Bagdá, que inclusive vitimou Sérgio Vieira de Melo [diplomata brasileiro]. Então a gente está falando sobre a caçada a alguém que se provou diversas vezes uma ameaça muito rigorosa, muito dura contra os Estados Unidos. Havia motivos de fato bastante concretos para que essa caçada fosse feita”, argumenta.
BIN LADEN INSPIROU FILMES, LIVROS E MÚSICAS

Osama Bin Laden ficou conhecido mundialmente como o maior terrorista de todos os tempos depois do atentado que derrubou as Torres Gêmeas em Nova Iorque e causou mais de três mil mortes. Nascido na Arábia Saudita, fundou a Al Qaeda em 1988 e desde então liderou diversos atentados contra países do oriente e do ocidente. Após o ato terrorista de 11 de setembro de 2001, Bin Laden ficou escondido por dez anos, gerando a maior caçada do planeta. O terrorista foi encontrado e morto pela CIA no Paquistão em 2011.
Durante o período e que permaneceu em fuga, o inimigo público mundial ganhou fama e se tornou personagem de diversos produtos culturais. Vários filmes foram lançados para contar a história da caçada ao terrorista. Entre eles “Fahrenheit 11 de Setembro”, dirigido por Michael Moore e lançado em 2004; “A Hora mais Escura” (2013), dirigido por Kathryn Bigelow; e "O Homem mais Procurado do Mundo” (2013), com direção de John Stockwell. Mais recentemente, em 2020, a Netflix lançou em seu catálogo o filme “Eu, Deus e Bin Laden”, dirigido por Larry Charles, com Nicolas Cage no papel principal.
Além de ter seu rosto estampado em máscaras de carnaval e ser tema de diversas marchinhas no Brasil - incluindo uma música da banda baiana Asa de Águia lançada em 2011 com o nome do terrorista - Bin Laden também serviu de inspiração para funkeiros. Autor do funk “Bin Laden Não Morreu”, o cantor e compositor paulista Jefferson Cristian dos Santos Lima adotou como nome artístico o título de MC Bin Laden. O artista é compositor de hits como “Tá tranquilo, tá favorável”, que conta com mais de 100 milhões de visualizações no YouTube.
O mercado editorial também lançou diversos livros focados na história do terrorista saudita. Fazem parte da lista títulos como “Sob a Sombra do Terror - A Vida Oculta de Osama Bin Laden Revelada por sua Esposa e Filho”, de autoria de Jean Sasso; “Não Há Dia Fácil - Um Líder da Tropa de Elite Americana Conta Como Mataram Osama Bin Laden”, de Kevin Maurer e Mark Owen; e “Bin Laden: o Homem que Declarou Guerra à América”, de Yossef Bodansky .
FIGURA ENTROU NO IMAGINÁRIO COLETIVO
O professor de Política Internacional Tanguy Baghdadi acredita que não exista propaganda ideológica na difusão da imagem de Bin Laden em livros, músicas e filmes. “O que aconteceu foi que ele se tornou uma figura realmente muito conhecida por todo mundo. Isso acaba entrando naturalmente no imaginário coletivo e as pessoas fazem disso o que bem entendem. Não acredito que as pessoas que tenham usado ou que usem a figura do Bin Laden seja em carnaval, seja em livros, seja em marchinha, ou no quer que seja estejam de alguma maneira influenciadas ideologicamente pelas ideias dele na prática. Estão falando sobre uma das figuras mais perigosas do planeta Terra e que ao mesmo tempo é muito conhecida”, ressalta
TERRORISTA ASSISTIA "FORMIGUINHAZ" E "CARROS"
Uma curiosidade sobre Osama Bin Laden é que ele gostava de assistir desenhos animados como "FormiguinhaZ" e " Carros" , filmes que viu em seu esconderijo antes de ser morto em maio de 2011. A revelação veio através dos 470 mil documentos, incluindo fitas de áudio e vídeo, que pertenceram ao ex- líder da Al Qaeda que foram divulgados pela CIA.
Comentarista da Globonews, Ariel Palacios lembra o gosto por entretenimento de outros ditadores como o general Francisco Franco, da Espanha, "que fazia esboços de desenhos animados, e do líder soviético Joseph Stálin que adorava filmes de faroeste, tendo uma relação de amor e ódio com John Wayne. Por um lado, adorava seus filmes. Mas, por outro lado detestava o fato do popular ator ser um fervoroso anticomunista”, conclui.
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(Colaborou: Célia Musilli)


