Advogado do diabo?
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 19 de julho de 2012
Rafael Ceribelli <br>Reportagem Local 
Dirigido pelo ator, diretor e ativista Robert Redford, o filme ''Conspiração Americana'' - estreia desta semana na programação do Cine Com-Tour/UEL - relata a história real (e praticamente esquecida) que envolve o polêmico julgamento de Mary Surrat, um dos fatos marcantes do período pós-Guerra Civil Americana.
O filme começa com uma breve - e dispensável - sequência nas trincheiras do final da sangrenta Guerra da Secessão, onde conhecemos o jovem tenente Frederick Aiken (James McAvoy), tentando encorajar um companheiro moribundo a lutar pela vida. Em uma elipse temporal, somos levados à noite da vitória do Norte sobre o Sul, onde os aliados da União brindam a rendição do General Lee, que comandava as tropas sulinas. Em uma festa que reúne a alta classe política de Washington, Aiken se reencontra com sua amada Sarah (Alexis Bledel) e revela que deseja seguir carreira no Direito. Ninguém imaginava que este ainda não era o ponto final no conflito da Secessão, e que os fatos que marcaram definitivamente os rumos da história americana ainda estavam por acontecer.
Enquanto brindes comemorativos eram realizados em todo país, acompanhamos três atos planejados pelos espiões do Sul: na mesma noite, são atacados o secretário de Estado, o vice-presidente e o presidente dos EUA, em uma conspiração que acabou com o assassinato de Abraham Lincoln pelo radical John Wilkes Booth (Toby Kebbell).
Após os atentados que chocam a nação, a 'caça às bruxas' começa, e uma montagem veloz mostra como as notícias da mídia espalham terror e confusão por todo o País, com boatos de novos alvos que serão atacados pelos 'terroristas' do Sul. Em uma resposta rápida, Booth é perseguido e morto pela guarda da União, enquanto seis conspiradores são presos e levados a julgamento. Entre eles, está Mary Surrat (Robin Wright), mãe de John Surrat, único foragido do grupo.
Se até aqui a narrativa estava mergulhada em uma ideologia americanóide, o jogo começa a mudar quando o senador Reverdy Johnson (Tom Wilkinson) pede ajuda a Aiken para defender o caso da suposta traidora da nação.
Com as cartas na mesa, o filme se assume então como um drama de tribunal, e começa a revelar um interessante conflito de interesses políticos. Duvidando da culpa de Mary Surrat, o advogado Aiken começa gradualmente a enxergar os motivo por detrás de uma retaliação rápida e brutal: em tempos de crise, o Estado precisa demonstrar sua força, custe o que custar.
Mesmo bem produzida, a fotografia com luz estourada joga contra a temática do filme, pecando pela falta de realismo na imagem e mantendo o espectador dentro de um clima que parece de um eterno 'flashback'. Por isto mesmo, as melhores cenas do filme acontecem dentro de quatro paredes; sem distrações estéticas, no tribunal ou na cela de presídio é que a história funciona melhor, e o planejamento das táticas da defesa de Johnson e Aiken são uma verdadeira lição de retórica.
Infelizmente, o protagonista é cheio de caras e bocas, e não consegue conferir força suficiente ao papel principal. Por outro lado, a atuação da acusada e do elenco secundário são impressionantes, e até os menores depoimentos no tribunal prendem a atenção, contribuindo para a riqueza do quebra-cabeças dentro do caso de Mary Surrat.
Travando uma batalha ingrata contra a vontade do Estado, traçar um paralelo com a situação contemporânea da América é inevitável; seja pelo pânico causado pela mídia ou pelo levante popular exigindo punição aos culpados, Aiken é retratado como se fosse, nos dias de hoje, o defensor da mãe de Bin Laden. Que lado está certo? É justificável ferir a Constituição para manter uma paz relativa e a ilusão de controle dos rumos da nação? No veredicto final, é um alívio perceber que ''Conspiração Americana'' suscita reflexões importantes, e não é tão inocente quanto parece.


