Adultos em um mundo de fadas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Phoenix Finardi<br>Reportagem Local 
Engana-se quem pensa que contos de fadas sejam só para crianças. Aliás, talvez eles sejam mais necessários para os adultos. Principalmente para os que desaprenderam a sonhar, duvidam de tudo que não é lógico e não conseguem mais se lembrar de como é tênue e enganosa a fronteira entre o bem e o mal.
Entre a Espada e a Rosa, de Marina Colasanti, é uma coletânea de contos de fadas, para adultos. São dez estórias, cheias de poesia e delicadeza. Algumas com finais surpreendentes; outras, enigmáticos.
A Dama do Leque vestia um quimono e vivia à beira de um lago acompanhada de duas garças. Toda vez que o dono do leque, um velho mandarim, se abanava, a dama tocava um instrumento e as garças voavam, sem sair do lugar.
Um rei tinha um cavalo tão precioso que só se alimentava de moedas de ouro. Engolia tesouros mas na hora de defecar, só estrume. Até o dia em que todo o ouro do reino acabou. Alguém teve então a ideia de virar o cavalo ao contrário, o que foi feito prontamente. E aí, passaram a dar estrume para o bicho, que engolia cocô e defecava... ouro. Você consegue imaginar o fim dessa fábula?
Marina usa seus personagens - princesas, cavaleiros e reis - para sutis reflexões. Como a batalha entre o Rei do Nada, que morava em um castelo de ar, e o rei Ráiç, que queria tornar-se Rei de Tudo.
Como não podia faltar num livro de contos de fadas, há também finais felizes, como a filha do estalajadeiro que toma o lugar de uma boneca de cera e conquista o amor do príncipe.
A própria Marina conta que os contos surgem sozinhos, os personagens têm vontade própria. Quando a princesa que olhava só para dentro surgiu, eu estava trabalhando em outro livro. Com que estremecimento a recebi! Excessivo, talvez, porque a ingrata estancou no meio do caminho, e nõa houve meio de convencê-la a prosseguir. Seu silêncio durou quase dez anos, lembra, falando sobre Como um Colar.
Além de uma exímia contadora de estórias, Marina Colasanti é pintora. Todas as ilustrações são feitas por ela. A escritora já atuou como colaboradora de vários jornais, apresentadora de televisão e roteirista. Recebeu vários prêmios, entre eles quatro Jabutis. No final do livro há uma entrevista dela, contando um pouco de sua vida e seu trabalho.
Se você há tempos não constrói castelos nem fala com as estrelas, experimente a arte de Marina. Ela mesma explica: Os contos de fadas não tratam da aparência externa, das atitudes imediatas, mas dos sentimentos mais profundos, aqueles que fazem de nós seres humanos.


