Arquiteta de formação, Adriana Falcão jamais deixou sua marca em alguma estrutura sólida, preferindo assinar trabalhos etéreos mas especiais - enquanto os colegas exerciam a profissão conforme a regra, projetando e edificando o espaço habitado pelos homens, ela se notabilizou por construções imaginárias, que ocupam e estimulam a mente. Escritora e roteirista, Adriana assinou projetos para o cinema, literatura, teatro e televisão. Em todos, um toque especial: o cuidado com as relações humanas. ''Sempre me interessei pelo convívio entre as pessoas'', conta.
Desde o último sábado, Adriana Falcão inicia revezamento com Marcelo Rubens Paiva na crônica da última página de sábado do Caderno 2, do jornal ''O Estado de S. Paulo''. ''Não sei falar de política ou economia'', argumenta. ''Prefiro deixar essa reflexão para o Luis Fernando Verissimo, que a faz com maestria. A atualidade só me interessa quando se aproxima dos sentimentos.''
Basta observar a coluna de estréia, intitulada ''A Gaveta''. Ali, Adriana elege a memória como tema ao propor uma brincadeira sobre onde ficam arquivadas, dentro da mente, as histórias do passado. ''Todos já fomos surpreendidos por uma lembrança que, de repente, volta fresca, sem nenhum motivo aparente. Onde ela estava guardada? Por que ficam hibernadas? Questões como essas motivaram o texto da coluna.''
As recordações também inspiraram alguns de seus livros. ''Como A Comédia dos Anjos'' (Planeta), inspirado no espírito irrequieto da mãe, que frequentemente participava da vida dos outros. E basta observar a ligeireza na mudança de cenas e a fluidez dos diálogos, ''A Comédia dos Anjos'' se assemelha a um divertido roteiro cinematográfico. A comparação não é gratuita - Adriana percorre com desenvoltura por diversas formas narrativas, permitindo que seu texto tenha flexibilidade para alimentar o cinema, o teatro, a televisão ou mesmo a literatura.
Romper com a fronteira que separa vivos e mortos, presente e passado, aliás, incentiva seu trabalho. Afinal, ela colaborou no roteiro do filme ''A Dona da História'', de Daniel Filho, inspirado em sua própria peça teatral, sobre uma mulher que volta ao passado e reencontra a si mesma.
Se não se apega a notícias pesadas, a escritora, porém, é fascinada pelas novas tecnologias. Foi graças à internet, por exemplo, que ela escreveu o livro ''PS Beijei'' (Salamandra), junto de Mariana Verissimo, filha de Luis Fernando Verissimo. O livro conta a história de Bia e Lili, duas amigas que, durante as férias escolares, se comunicam por mensagens eletrônicas com uma única finalidade: beijar os meninos.
O mundo virtual, no entanto, é amplo demais, segundo Adriana. Ela não se interessa por blogs, que possibilitam a qualquer um criar sua própria coleção de escritos. ''Acho saudável que muita gente se interesse em se 'exibir', mas ainda temos de cuidar dos limites, que nem sempre são visíveis.''
Enquanto busca assuntos para suas crônicas, Adriana ocupa o resto do tempo com muito trabalho. Além de pertencer à equipe de roteiristas do seriado ''A Grande Família'', da Rede Globo, ela prepara o novo livro, que deverá ser editado pela Objetiva no próximo ano.

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