Nicole é estudante de Química da Universidade de São Paulo (USP), uma dessas meninas cheias de atitude que chamam a atenção por onde passam. Ela é apaixonada por um cafajeste chamado Sombra. Sombra é vocalista de uma banda de hard rock, ''The Suckers'', que fazia relativo sucesso entre os roqueiros e perdedores de uma comunidade paulistana entre o final dos anos 80 e início dos 90, quando Max pensou em mudar de vida. Max é aquele cara que nunca será o protagonista mas é onde o coração pulsa em qualquer história. Todos fazem parte do álbum ''Xampu: Lovely Losers'', do quadrinhista Roger Cruz, lançado pela Devir Livraria.

A história faz parte de uma trilogia que Cruz pretende lançar nos próximos anos, um projeto autoral perdido entre os trabalhos comerciais para grandes editoras do mercado norte-americano, como Marvel Comics e Image Comics. O autor, de 39 anos, que no início de sua empreitada lá fora seguiu os passos de Jim Lee e Joe Madureira nos quadrinhos de super-heróis, deixa essa temática de lado para investir em seus próprios roteiros. A seguir ele conta um pouco mais dessa experiência.

De onde surgiu essa necessidade de contar as histórias contidas em ''Xampu''?

As histórias foram escritas entre 97 e 99, época da publicação da primeira HQ na revista ''Metal Pesado''. Tentei produzir as outras HQs muitas vezes de lá pra cá mas nunca encontrava tempo devido ao trabalho para a Marvel. No ano passado, resolvi tirar alguns meses de férias para concluir o ''Xampu''. Em 97, a necessidade era a de contar histórias de pessoas que conheci e experiências que tive nos anos 80/90. No ano passado, a urgência era terminar o que comecei, mesmo estando mais de dez anos atrasado.

Você cita Curitiba como influência nessa história...

Participei de um evento em Curitiba, onde falaria sobre a minha carreira. A primeira HQ do ''Xampu'' já havia sido publicada nessa época. No final, enquanto autografava alguns exemplares de X-Men, recebi algo parecido com pôsteres bem grandes, com mais de um metro cada um. Olhando bem, via-se que eram reproduções feitas à mão das três páginas da HQ publicada na ''Metal Pesado''. De tão precisas, pareciam ampliações das páginas. O autor era um fã, que não tinha podido comparecer ao evento porque era policial e estava de plantão naquele dia. Fiquei muito feliz por saber que a HQ representava tanto para alguém a ponto de fazer algo tão trabalhoso. Isso acabou servindo como grande incentivo para eu concluir o livro.

Até que ponto suas experiências próprias se entrelaçaram com a história?

As situações mostradas no livro não são relatos exatos de experiências próprias. Na maioria dos casos, usei características de muitas pessoas que conheci para compor um único personagem. A ideia era não deixar clara a distinção entre documentário e ficção. Histórias confessionais ou autobiográficas sempre tiveram grande apelo. No caso do ''Xampu'', eu pretendia que os cenários, a época em que a história se passa, a música, etc, dialogassem com quem viveu nos anos 80/90.

Qual a diferença entre o trabalho autoral e o trabalho para o mercado de quadrinhos americanos de super-heróis?

A diferença é enorme. Os roteiros são todos produzidos nos EUA e o artista precisa de referência para desenhar quase tudo. Uma página por dia é geralmente o exigido para uma HQ de 22 páginas. No meu caso, com arte-final. Já no trabalho autoral, o artista está livre dos prazos e direcionamentos. Um ponto negativo em projetos autorais é que você não é pago para produzir. Precisei me preparar financeiramente para me dedicar ao projeto.

Foi muito difícil chegar ao estilo que está no álbum?

Algumas coisas me fizeram buscar um traço diferente do usual para o ''Xampu''. Penso que o meu desenho para ''comics'' não combinaria com o conteúdo do projeto. Mesmo conhecendo a possibilidade de desagradar quem gosta do meu desenho de super-heróis, resolvi correr o risco. Também pretendia que a estilização no desenho deixasse os personagens mais ''genéricos''. Ou seja, ele pode se parecer com alguém que conheci mas pode se parecer com alguém que o leitor conheceu ou conhece.

O que pretende fazer daqui pra frente?

Tenho roteiros escritos para mais dois volumes de ''Xampu''. Neste momento estou produzindo ''GutiGutz'', HQ de humor. Sobre os super-heróis, ainda tenho um ano de contrato com a Marvel. Terminado o contrato, não tenho planos de continuar com o trabalho de desenhista de super-heróis como atividade principal.

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