ADONIRAN EM LETRAS E CIFRAS
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de setembro de 2000
Nelson Sato De Londrina 
Não, ainda não é o prometido livro contendo suas mais de 90 letras inéditas. Mas o lançamento neste mês do songbook O Melhor de Adoniran Barbosa, pela editora Irmãos Vitale serve como um belo aperitivo trazendo 21 melodias do poeta da garoa cifradas para violão, guitarra e teclados.
O volume inclui um prefácio de J.C.Botezelli, o Pelão, produtor de um dos discos do homenageado. Entre as músicas selecionadas constam Um Samba no Bixiga, Conselho de Mulher, Luz da Light e obviamente as impagáveis Samba do Arnesto, Saudosa Maloca, Tiro ao Álvaro e Trem das Onze.
A antologia é emblemática revelando muito do compositor que deu alma ao samba de São Paulo. Trem das Onze aliás recebeu recentemente um título honroso da população paulistana, que a elegeu a música que melhor representa a cidade, o que colocou Adoniran à frente de Caetano Veloso, Rita Lee e demais tradutores da paulicéia.
Adoniran cantou o Brás e o Bexiga. Como ninguém antes ou depois, transportou para as letras a boêmia, a malandragem, as cantinas, as desgraças e alegrias do cidadão comum. Todo samba é igual declarou certa vez. O meu só é diferente nos versos. Eu faço samba que fala em Casa Verde. Eu não posso falar em Copacabana, pois não a conheço, falo então da Sorocabana. Eu falo da Mooca, falo do metrô, da 23 de Maio, das nossas ruas, falo da Praça da Sé, de Jaçanã, da Vila Esperança, dos Gusmões. Falo do que entendo, do que sei.
Além da temática, local e ao mesmo tempo universal, Adoniran chamou atenção também pelo paulistanês típico dos imigrantes italianos. Com viés quase sempre cômico, criou clássicos de linguagem torta como Samba do Arnesto: O Arnesto nos convidô, prá um samba ele mora no Bráz / Nóis fumo, não incontremo ninguém / Nós vortemo com uma baita de uma réiva / Da outra vez nóis não vai mais / (Nóis não semo tatú) / Noutro dia encontremo com o Arnesto / Que pediu desculpas mas nóis não aceitemos / Isso não se faz Arnesto, nóis não se importa / Mas você devia ter punhado um recado na porta.
Curioso notar que seus intérpretes costumavam corrigir a pronúncia, alterando a dicção original. Cantoras como Elis Regina e Clara Nunes foram duas que alteraram a concordância de algumas frases. De seu imenso repertório, uma boa parte das letras foi escrita originalmente em guardanapos, lenços, maços de cigarros e até caixas de fósforos. Ele rascunhava e depois pedia para os amigos guardarem com a promessa de colocar música depois.
Desde o início da carreira, em 1932, teve dezenas de parceiros entre os quais Osvaldo Moles, Edmundo Cruz, Hervê Cordovil, Blota Júnior, Eduardo Gudin, Pedrinho Romano, Rolando Boldrin, Frederico Rossi, Hilda Hilst e até Vinícius de Moraes que o teria enfurecido após declarar que São Paulo era o túmulo de samba.
Dessa parceria nasceu Bom Dia Tristeza, incluída no songbook. Uma versão conhecida da história é que Vinicius estava num bar com amigos e fez um poema (a pedido) para Aracy de Almeida que, por sua vez, passou dias depois para Adoniran musicar. Outra versão diz que a letra era bem conhecida e que o poetinha a teria enviado pelo Correio a Aracy, acompanhada do recado: faça o que quiser com ela.
O fato é que a música foi gestada sem que os dois se conhecessem. Mal sabia Adoniran o transtorno que a gravação lhe causaria, com a acusação de plágio movida pelo cantor Noite Ilustrada. Em polvorosa, gente do rádio e a comunidade artística tentaram promover uma mesa-redonda para colocá-los cara a cara.
Mas Adoniran se recusou amargurado. Se esse rapaz não fosse já tão infeliz, eu poderia dizer algumas coisas. Mas deixa pra lá...Eu nunca precisei, nem preciso roubar música de ninguém, pois é o que eu sei fazer de melhor e com facilidade respondeu na época. O episódio é contado na biografia Adoniran Um Sambista Diferente, de Bruno Gomes, publicado há três anos pela Funarte.
O livro revela que a música era uma paixão secundária de Adoniran. Filho de imigrantes italianos, caçula de 7 filhos, deu duro em diversas atividades profissionais antes de ganhar a vida com artista. Foi encanador, office-boy, pintor de paredes, entregador de marmitas, metalúrgico, balconista, garçom, garagista, tecelão e vendedor de meias.
Ao desembarcar em São Paulo com dezoito anos, vindo de Valinhos (interior paulista), seu sonho era ser ator. Aos poucos, começou a participar de programas de rádio e ganhar alguma popularidade. Adotou o pseudônimo Adoniran Barbosa relegando João Rubinato à certidão de nascimento e demais documentos. Adotou também o figurino indefectível com o bigodinho, o paletó, a gravata e o chapéu de abas curtas.
Fez oito papéis no cinema, entre eles um jagunço em O Cangaceiro de Lima Barreto. Na TV Record, atuou na telenovela Ceará contra 007. Na Tupi, foi um pescador em Mulheres de Areia. Gravou o primeiro disco em 1935, uma bolacha de 78 rotações que trazia a música Dona Boa. Já nos anos 50, integrou o conjunto Os Demônios da Garoa com o qual emplacou algumas marchinhas de carnaval. Na mesma época, atraía vasta audiência com o programa radiofônico História das Malocas.
Em 1964, gravou Trem das Onze, que estourou no carnaval do ano seguinte. Foi seu maior sucesso. Nas temporadas seguintes, amargou um relativo ostracismo ofuscado sucessivamente pela Bossa Nova, Tropicália e a MPB oriunda dos festivais. Nos últimos anos, Adoniran viveu o suplício de um enfisema pulmonar.
Em sua casa, já usava a bala de oxigênio e um nebulizador. Com frequência era internado em hospitais. Morreu pobre e humilde em 1982. Tinha 72 anos. Deixou cerca de 90 canções inéditas, um acervo que o amigo Juvenal Fernandes catalogou e planeja publicar em livro brevemente.
Os interessados em adquirir o songbook O Melhor de Adoniran Barbosa entrar em contato com a Editora Irmãos Vitale ( Rua Av. Almirante Barroso, 2, 6º and. Centro, Rio de Janeiro, CEP 20 031-000). Telefone (21) 220-8645.


