ADOLESCENTES ROUBAM A CENA
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 30 de agosto de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<BR>De Veneza<BR>Especial para a Folha 2 
A primeira boa surpresa do festival é um filme que não é original e nem tem pretensões a grande arte. Vem do México, e leva a assinatura de um diretor que há dez anos começou a carreira em seu país com a muito bem sucedida comédia negra ''Solo con tu Pareja'', sobre um homem que pensa ter sido infectado com o vírus HIV. De olho nas novidades mundiais - a idéia é sempre a cooptação de novos talentos no sentido de anular qualquer sombra de concorrência no mercado internacional -, Hollywood ''importou'' Cuarón. Que nos anos 90 se deu muito bem comercialmente com os anódinos ''A Princesinha'' e a refilmagem de ''Grandes Esperanças''. Mas felizmente o bom filho à casa torna, e eis Cuarón de volta a solo mexicano, auxiliado no roteiro pelo irmão Carlos e por um trio de atores magníficos. Na coletiva o cineasta deixou bem claro a necessidade de voltar a ''buscar a identidade''. Mas também disse ter sido muito bem tratado por Hollywood...
O cinema - americano, em particular - é contumaz barateador do tema da adolescência que se despede, e salvo honrosas e naturalmente clássicas exceções (''Houve Uma Vez Um Verão'', de Robert Mulligan), a vala comum está sempre abarrotada. ''Y Tu Mamá También'', apesar da superfície que convida a uma troca de títulos - ''American Pie'' por ''Tortilla Mexicana'' -, o road movie de Cuarón vai bem mais além do que somente apimentados sketches pubescentes de olho nas bilheterias.
Aos dezessete anos os amigos Julio e Tenoch (Gael Garcia Bernal e Diego Luna, amigos desde a infância na vida real, e portanto com plena identificação com muito dos respectivos personagens) vivem a irresponsabilidade de quem é governado somente pelos hormônios. Numa festa, conhecem a bela prima já adulta de um deles, a espanhola Luisa (Maribel Verdú, mais mulher e mais atriz, passados oito anos do ''Belle Époque'' de Fernando Trueba, vencedor de Gramado-94 e do Oscar de filme estrangeiro). Ela curtindo uma confessada traição do marido, eles antevendo uma grande aventura sexual, a grande fantasia erótica que habita sonhos libidinosos da adolescência do planeta. A jornada em busca do mar e de prazeres hedonistas de fato ocorre, mas quanto mais o trio avança pelo interior à procura do litoral, mais um estranho, fascinante, conturbado país a eles é oferecido. E o espectador, conduzido também por um narrador em off que enriquece o relato com detalhes saborosos e informacões vitais, se une com muito prazer a esta viagem na mesma medida bem humorada e reflexiva, que vai não apenas definindo perfis e comportamentos psicológicos, mas também esmiuçando uma rica, complexa paisagem político-social.
Absolutamente integrados, roteiro, direção e elenco fazem deste filme uma experiência fascinante. A América Latina entra com força na principal mostra competitiva, e arranca aplausos unânimes. O Brasil, com Walter Salles, passa dia 5, quarta. Vamos ver.
Também está dando o que falar, o ''hardcore'' de Larry Clark que compete pelo Leão de Ouro no festival.. ''Bully'', estréia americana na 58 Mostra Internazionale d'Arte Cinematografica, é a história verídica de um grupo de bem-nascidos adolescentes da ensolarada Florida. À luz do dia eles vivem sob a proteção do teto abastado e burguês. Mas à noite, quase sempre glacialmente nus, drogados com toda espécie de aditivos, a qualquer momento sexualmente ativos e em risco, garotos e garotas mergulham num universo de tédio e auto-destruição.
Bobby e Marty são amigos. Juntos fazem loucuras com garotas, drogas e gays. O problema é que o sádico Bobby inferniza a vida de Marty: é brutal e chantagista, mantendo o amigo sob cruel dependência. E nas cabeças onde drogas dão as cartas, tudo pode acontecer. Assim, a namorada de Marty & amigos de embalo decidem liquidar Bobby. O crime é planejado - com a sutileza possível em um bando de desvairados. Concretizado, o resultado é óbvio, com prisão imediata e penas pesadas para todos: cadeira elétrica para Marty e várias perpétuas.
Embora localizados em outro extrato social, os menores de ''Bully'' são velhos conhecidos e já estavam no perturbador semi-documentário ''Kids'', que competiu em Cannes-95. Digamos que estão apenas um pouquinho mais velhos, mas continuam perdidos e incomunicáveis como antes. Dependente de drogas aos 15 anos, mais tarde fotógrafo famoso por buscar sempre a autenticidade, com obras espalhadas por museus em todo o mundo, Larry Clark fez outro filme que começa a fazer mais sentido quando se sai do cinema. ''Bully'', numa visão mais rigorosa, é uma patética exposição de uma sociedade que não oferece absolutamente nada para muitos de seus filhos - e nesse caso não se trata do ''nada'' material - a não ser a alternativa de assassinatos ou massacres escolares sem qualquer significado. Impiedoso, ''Bully'' não raro está mais próximo da comédia negra do que da tragédia.


