Tudo começou como uma grande ''zoação''. No princípio, Heloísa Périssé inventava caras e bocas de uma legítima adolescente só para implicar com a enteada Júlia, então com 13 anos. Entre uma brincadeira e outra, as duas esqueciam os 15 anos de diferença e trocavam confidências sobre problemas típicos da idade, como dieta, mesada e vestibular. Aos poucos, a brincadeira foi ficando séria. Afinal, a descolada Tati, como foi batizada a ''aborrescente'' de Heloísa, já virou personagem da peça ''Cócegas'', tornou-se aluna da ''Escolinha do Professor Raimundo'' e agora ganhou um quadro no ''Fantástico'', que estréia no próximo domingo. ''A Tati deixou de ser minha enteada e virou minha entidade. Já não sei mais onde termina uma e começa a outra'', diverte-se.
No extinto humorístico da Globo, Tati era aquela estudante sabichona que abusava de gírias para responder às perguntas do professor. Já no quadro ''Fala Sério!'', Heloísa vai dispor de mais tempo para desenvolver a personagem. Por isso mesmo, Tati vai ganhar novos cenários com direito a um quarto repleto de pôsteres de seus ídolos e até uma família. ''Cheguei à conclusão que o quadro ganharia se eu incluísse personagens fixos'', avalia. A atriz Louise Cardoso vai assumir o papel de mãe, com Carol Machado e Suzana Ribeiro sendo as amigas de Tati. Além disso, Heloísa vai contracenar com participações especialíssimas, como Marcos Palmeira, que vai interpretar o namorado de Tati num episódio, e Ingrid Guimarães, uma amiga ''punk'' em outro. Chico Anysio, o sogro de Heloísa, é um dos próximos convidados. ''Só fiz a 'Escolinha' porque o Chico acreditou em mim. Não por eu ser nora, filha ou avó, mas pela profissional que eu sou'', enfatiza a atriz, que foi casada por nove anos com Lug de Paula, o Seu Boneco da extinta ''Escolinha''.
Na peça ''Cócegas'', atualmente em cartaz no Teatro das Artes, na Zona Sul do Rio, Tati é uma das seis personagens de Heloísa. No palco, Tati passa a tarde ao telefone, contando para as amigas como beijou o menino que mais cobiçava. Na tevê, a personagem vai explorar outros dilemas típicos das ''aborrescentes''. ''Num dos episódios, a Tati vai querer ir ao show do Sandy e Júnior, mas acha que está muito gorda'', exemplifica. A identificação das adolescentes com Tati é imediata. Desde que a ''Escolinha do Professor Raimundo'' saiu do ar, em dezembro do ano passado, Heloísa era sistematicamente abordada nas ruas por adolescentes que cobravam a volta da personagem à tevê. ''As meninas chegam para falar comigo como se eu tivesse a idade delas. As gírias podem até mudar, mas os conflitos são sempre os mesmos'', analisa.
Embora tenha se inspirado na enteada Paula para criar a personagem, Heloísa reconhece que alguns traços da Tati são autobiográficos. Carioca de nascença, Heloísa Périssé se define como ''baiana de adolescência''. E foi lá, nas praias de Salvador, que Heloísa passou os melhores anos de sua vida. ''Ia para a praia de manhã, comia por lá mesmo, via o sol se pôr e só voltava para casa à noitinha'', detalha. Quando criou a Tati, em 1996, Heloísa não imaginava que a personagem pudesse ir tão longe. Afinal, o vocabulário carregado de gírias, como ''tipo assim'', ''irado mesmo'' e ''sinistro'', denunciavam a procedência carioca. ''Tem sempre alguém que se parece ou se identifica com ela: a neta, a sobrinha, a amiga do colégio...'', observa.
Se depender de Heloísa, Tati vai continuar aprontando das suas por muito tempo. A atriz planeja transformar os diálogos de ''Cócegas'', já vista por 10 mil pessoas, em um livro de crônicas. Além disso, a peça vai chegar também aos cinemas pelas mãos do diretor Domingos Oliveira. Recentemente, uma empresária quis adquirir o texto para encená-lo em Buenos Aires. Desistiu. Achou que nenhuma outra atriz interpretaria Tati tão bem quanto Heloísa. Conclusão: a peça vai ser encenada na Argentina pelo elenco original. ''Quem sabe a Broadway não é o nosso próximo passo, hein?'', indaga Heloísa, com uma autoconfiança que bem poderia ser da Tati.

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