André Bernardo
TV Press
Assim que desembarca no Brasil, uma donzela portuguesa arregala os olhos ao se deparar com a imensa cadeia de montanhas que forma a Serra do Mar. Acostumada às fortalezas que eram erguidas ao redor das cidadelas do Velho Mundo, ela se dirige ao capitão da caravela e pergunta: ‘‘Que muralha é aquela?’’. Mal sabia que, por trás daquela muralha, se escondia um mundo em que predominava a caça aos índios, a busca do ouro e a luta contra animais selvagens.
Escrita por Maria Adelaide do Amaral a partir do romance de Dinah Silveira de Queiroz, ‘‘A Muralha’’ comemora os 500 anos do Descobrimento do Brasil e enfoca um período histórico ainda pouco explorado na tevê: o das entradas e bandeiras. ‘‘O Brasil não conhece o Brasil. Essa macrossérie é uma maneira de revelar o país aos brasileiros’’, ambiciona Maria Adelaide.
A direção é de Denise Saraceni que tem em seu currículo, por exemplo, ‘‘Memorial de Maria Moura’’ e ‘‘Agosto’’. A estréia acontece na terça-feira. A autora de ‘‘A Muralha’’ está visivelmente empolgada e com razão. O orçamento desta macrossérie de 49 capítulos está fora dos padrões da Globo. Cada capítulo consome cerca de R$ 220 mil, o dobro do foi gasto por capítulo em ‘‘Hilda Furacão’’.
A narrativa de ‘‘A Muralha’’ tem início quando Beatriz, uma bela portuguesa interpretada por Leandra Leal, desembarca no Brasil com o intuito de se casar com o primo Tiago, um jovem bandeirante vivido por Leonardo Brício. No Brasil, Beatriz passa a morar na casa de Dom Braz Olinto, um nobre patriarca interpretado por Mauro Mendonça. Como todo bandeirante que se preze, Dom Braz só se preocupa em localizar metais preciosos no interior do país às custas da captação de mão-de-obra indígena e eliminação de tribos hostis.
Por coincidência, Mauro Mendonça foi convidado por Denise Saraceni para interpretar o mesmo papel de 1968, quando integrou o elenco da versão de Ivani Ribeiro para a extinta TV Excelsior. ‘‘A macrossérie acabou com qualquer visão romântica sobre os bandeirantes. Dom Braz é um homem que caça índios porque eles têm valor de troca’’, esclarece.
De fato, esta é a quarta vez que o romance de Dinah Silveira é adaptado para a tevê. A primeira delas foi levada ao ar em 1958 pela TV Tupi e a segunda em 1963 pela TV Cultura. A principal diferença entre a atual versão e as demais é com relação ao tempo em que se passa a história. No livro, a história transcorre no final do Século 18.
Maria Adelaide, porém, resolveu antecipar a narrativa em um século e situar o ano de referência em 17. ‘‘Vivemos um momento propício para repensar o país. Olhar para um passado tão distante nos ajuda a entender o presente’’, acredita a autora.
Outra licença poética tomada por Maria Adelaide Amaral diz respeito à criação de alguns personagens que não constam do romance. O beato Dom Jerônimo, vivido por Tarcísio Meira, é um deles. Inimigo número um de Dom Braz, Jerônimo é o irmão de um importante inquisidor que livrou da morte o pai da bela Ana, uma cristã-nova vivida por Letícia Sabatella.

QUEM É QUEM
•Beatriz (Leandra Leal) – Filha de navegador português, vem para o Brasil a fim de se casar com Tiago, um primo que não conhece. Apesar de ser evitada por ele, sonha em ser feliz com o rapaz. Deixa os modos aristocráticos e se adapta à vida na colônia.
•Tiago (Leonardo Brício) – Filho de Dom Braz, respeita os índios e contraria o pai por não estar de acordo com as bandeiras. Seu grande sonho é encontrar ouro no sertão. Embora esteja prometido em casamento para Beatriz, se apaixona por Isabel.
•Dom Braz (Mauro Mendonça) – Patriarca e a principal autoridade da região. Participa ativamente das bandeiras, vende índios, negocia com comerciantes e não hesita em comprar briga com quem quer que seja. Tem um fraco pela sobrinha Isabel.
• Isabel (Alessandra Negrini) – Ela é o oposto do que se espera de uma mulher. Vive com os índios, acompanha os homens nas bandeiras e tem um comportamento quase selvagem. Chega a salvar a vida do tio durante um ataque indígena a Lagoa Serena.
• Dom Jerônimo (Tarcísio Meira) – Legítimo representante do seu tempo, esconde a alma malvada atrás de uma religiosidade que finge ter. Ao conhecer Ana, vai escravizá-la e espioná-la para saber se ela continua judia ou realmente se converteu.
•Ana (Letícia Sabatella) – Judia, se vê obrigada a se converter para não morrer na fogueira da Inquisição. No Brasil, se casa com Dom Jerônimo por causa de uma dívida de gratidão que seu pai tem com ele. Ao desembarcar, se apaixona por Guilherme.
• Antônia (Cláudia Ohana) – De origem espanhola, vivia em Portugal como prostituta. Irreverente e desbocada, veio para o Brasil com o objetivo de fazer um casamento por interesse. Torna-se um grande partido, já que as mulheres brancas são escassas na região.O período das entradas e bandeiras serve de pano de fundo para a macrossérie ‘‘A Muralha’’, que a globo exibe a partir de terça
Luiza Dantas/Carta Z Notícias obrigatóriaTarcísio Meira interpreta o vilão D. Jerônimo que inferniza a vida de Ana (Letícia Sabatella), uma judia convertida