Adivinhe quem vem para o Natal

Arquivo FolhaRenato Aragão: ‘‘Tem filmes que se o cidadão for
ver, fica 20 anos sem procurar cinema nacional’’Adivinhe quem vem para o NatalDe agora em diante vai ser, no mínimo, um filme por ano. Talvez dois, se houver tempo e energia. Quem avisa, ou ‘‘ameaça’’, como ele mesmo diz, é Renato Aragão, o Didi das crianças, que anuncia o lançamento de ‘‘Simão, o Fantasma Trapalhão’’ para o dia de Natal deste ano.
Aragão é sucesso certo, como sabem os exibidores brasileiros, em geral refratários ao produto nacional, mas que, no seu caso, abrem prazerosamente as portas dos seus cinemas. Ele tem a fórmula do gosto popular e já atraiu milhões de pessoas para ver os filmes dos Trapalhões. ‘‘Um dono de cinemas disse que eu merecia ter uma estátua lá na Cinelândia.’’
Decorrência lógica, Aragão é responsável pela maior bilheteria da retomada do cinema brasileiro: mais de 1,5 milhão de ingressos vendidos com ‘‘O Noviço Rebelde’’, dirigido pela cineasta Tizuka Yamasaki. ‘‘É mais ou menos o mesmo número que espero para Simão’’, diz o cômico.
A idéia para o novo longa-metragem saiu do computador de Aragão e de uma das ‘‘parcerias’’ habituais com os clássicos da literatura. Desta vez, o ‘‘sócio’’ é ninguém menos que o escritor inglês Oscar Wilde e seu ‘‘O Fantasma de Canterville’’, com sua formalidade britânica devidamente adaptada para o universo infantil e informalidade bem brasileira, de que Aragão é profeta, arauto e fixador de regras.
Além dele, que vive na história um dublê de mordomo guardião de uma mansão e babá das crianças da casa, trabalham no elenco o remanescente dos Trapalhões, Dedé Santana, Luciano Szafir, Dirce Migliaccio, Ivete Sangallo, entre outros. A direção é assinada por Paulo Aragão Neto, filho do cômico.
Como é a colaboração entre pai e filho? Para Paulo Aragão, dirigir o pai foi uma verdadeira escola do métier cinematográfico, que acrescentou muito ao que ele já sabia, pois é formado em cinema pela PUC carioca. Renato se faz de modesto: ‘‘Ele sabe muito mais do ofício do que eu.’’ Ao que o filho responde: ‘‘Você conhece tudo intuitivamente, as cenas já vêm decupadas, com ritmo próprio.’’
Rasgação de seda familiar à parte, Renato garante que não interfere na direção, mas confessa que dá um palpitezinho aqui, outro ali, mexe em uma ou outra cena, sugere a música. Não dá opinião sobre a montagem, mas depois do primeiro corte, aquela versão ainda incompleta do que será o produto final, acha-se no direito de opinar.
E suas opiniões são seguidas à risca, pois ninguém em sã consciência tem dúvidas de que ele conhece a fundo seu ofício, mesmo que não seja de fazer teorias sobre ele. A prática fala por si. Numa terra em que os números do cinema são em geral parcimoniosos, Aragão contabiliza nada menos do que 120 milhões de ingressos vendidos em seus 38 longas-metragens anteriores. Houve tempo, no auge do sucesso de ‘‘Os Trapalhões’’, em que Renato impunha - a si mesmo e aos outros membros de sua equipe - ritmo de produção digno de um remador de Ben-Hur. ‘‘Era um esquema industrial; enquanto a gente estava filmando, eu já estava com o roteiro pronto para o próximo’’, lembra-se.
O público infantil estava acostumado aos lançamentos. Sabia que no começo de cada um dos dois períodos anuais de férias um novo filme dos Trapalhões estaria entrando nos cinemas e já se preparava - e aos pais - para recebê-lo. Cinema industrial se faz com esse tipo de regularidade, que cria o hábito no espectador e o leva a sair de casa, como sabem os donos mundiais do negócio, que têm sempre em suas carteiras um bom número de filmes de verão para ser oferecidos no período de férias escolares, para crianças e adolescentes.
Esse tempo acabou, pelo menos por enquanto e no Brasil, sabe Aragão. Apesar de receber tratamento privilegiado, ele também tem queixas contra os exibidores. ‘‘O Noviço Rebelde’’ foi tirado de cartaz quando ainda estava fazendo muito sucesso, porque precisava dar lugar às produções americanas que estavam chegando’’, diz. Ele calcula que a bilheteria poderia ter ido até cerca de 2,2 milhões, mas estacionou em 1,5 milhão porque o longa-metragem foi expulso das salas. Apesar disso, Aragão acha que o cinema brasileiro está no caminho certo da reconquista do público.
Com filmes como os seus, é claro, e também outros como ‘‘Central do Brasil’’ e ‘‘Carlota Joaquina’’, que cita espontaneamente. De outros, prefere nem falar. ‘‘Tem filmes que se o cidadão for ver, fica 20 anos sem procurar cinema nacional.’’
Qual o segredo de comunicação com o público desse cearense de 63 anos? ‘‘Não tem fórmula mágica’’, afirma Renato. ‘‘Mas tem de ter começo, meio e desfecho feliz, é claro, porque não se trata de drama.’’ Mais: música bem colocada e sentido de ritmo para contar as anedotas, técnica que ele domina como ninguém.
Outra coisa: não se pode ter dó de meter a tesoura naquilo que não esteja funcionando, pareça muito arrastado e contenha risco de aborrecer o público. ‘‘Eu sei que o diretor às vezes tem pena de tirar aquilo que custou tanto para ser feito’’, admite. ‘‘Mas não faço filme para mim nem para a crítica - faço para o público.’’
Aliás, Aragão leva numa boa as resistências do jornalismo especializado ao tipo de cinema que faz. ‘‘Já estou acostumado a levar paulada, e tem muita gente que escrevia falando mal dos Trapalhões mesmo antes de ver o filme’’, conta. Ele se recorda da única vez em que foi elogiado com unanimidade. Foi quando lançou ‘‘Os Trapalhões no Auto da Compadecida’’, baseado na peça de Ariano Suassuna, com direção de Roberto Farias. Um luxo. Os intelectuais babaram com essa conciliação das culturas popular e erudita. ‘‘O bonequinho só faltava dar cambalhotas’’, lembra ele, brincando com o signo usado pelo jornal O Globo para indicar a cotação dos filmes.
O público, no entanto, não foi tão entusiástico. Retraiu-se e rendeu ao comediante pouco mais de 2 milhões de espectadores, número de sonho para qualquer diretor brasileiro, mas bem abaixo do padrão do comediante. Quer dizer, sucesso de crítica é uma coisa e de público, outra. E ele acha, no fundo, que a crítica não atrapalha tanto assim. ‘‘Ruim mesmo era na época em que eu era completamente ignorado’’, reconhece. De qualquer forma, recusa-se a ficar na posição de ‘‘servir a dois senhores’’ e volta-se inteiramente para o público, o ‘‘seu’’ público.
Mas que público é esse? O mesmo que acompanha seus programas na TV Globo? Provavelmente, mas Aragão discorda quando se insinua que seu sucesso no cinema se deva à sua imagem costumeiramente vista na tela pequena. ‘‘Acho que não, tanta exposição tem o perigo até mesmo de cansar as pessoas’’, opina.
Segundo Aragão, seu público fiel é muito especial, sabe quando um novo filme vai estrear e já começa a guardar dinheiro para ir vê-lo. Por isso não se sente afetado por um dos grandes problemas relacionados ao cinema popular no Brasil, o aumento do preço médio do ingresso, que ficou cerca de cinco vezes mais caro nos últimos anos.
Esse público cativo nos áureos tempos comparecia em massa, uma média de 4 a 5 milhões de espectadores, cifra que foi diminuindo com a queda do número de pessoas que frequenta os cinemas. Para se ter idéia. Em 1978, ano em que ‘‘Os Trapalhões na Guerra dos Planetas’’ fez 5 milhões de espectadores, o público total do ano foi de 211 milhões. Aragão teve 2,4% da bilheteria.
Vinte anos depois, ‘‘O Noviço Rebelde’’ teve 1,5 mihão de pagantes, para um público total de 52 milhões. Em porcentagem, ‘‘Noviço’’ representa 2,8% dos ingressos vendidos no ano. Proporção mais alta que a do filme de 1978, o que pode indicar que Aragão continua mobilizando a mesma fatia de espectadores potenciais. Com a ampliação do mercado, pela chegada dos multiplexes, ele também tende a subir. Pelo menos é o que espera.

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