Paulo Briguet
De Londrina
Diz o velho chavão que a história é escrita pelos vencedores. Não é uma noção precisa. Veja o caso do revolucionário russo Lev Trotsky: ele foi um vencedor ou um perdedor? No caso, devemos levar em conta a liderança de Trotsky na Revolução de 1917 e na Guerra Civil Russa, ou seu posterior banimento e homicídio por Stalin? O fato é que Trotsky (além de fazer) escreveu, mal ou bem, a ‘‘História da Revolução Russa’’. Escolha, se for possível, enquadrá-lo numa categoria única de vitorioso ou derrotado. Tente o mesmo processo com Robespierre, Moisés, Lincoln, Henry Miller, Getúlio Vargas, Carlos Lacerda, Euclides da Cunha, Freud, Zumbi dos Palmares, Nelson Rodrigues, Sócrates e Júlio César. O grande Mané Garrincha, que escrevia a história do futebol por linhas e pernas tortas, venceu ou perdeu? Foi mais o alcoólatra ou mais o craque? Você chegará à dialética certeza de que vida não é placar.
Assim na história, assim no cotidiano. A história do indivíduo é uma sequência de persistentes entraves, pequenos avanços, inesperados recuos, tolas esperanças, lances fugidios, bolas que espirram para a lateral, amnésias da última noite, radiantes alegrias e o caos observado pelos nossos relógios circulares. Impor a etiqueta de ‘‘vitorioso’’ ou ‘‘derrotado’’ ao indivíduo equivale a transformá-lo em mercadoria. Numa sociedade mergulhada no cinismo, coisifica-se e rotula-se a complexidade da vida para que a freguesia tenha maior facilidade em examinar as prateleiras. De um lado, os que tiveram sucesso. Do outro, os fracassados. Façam suas apostas; paguem na saída; muito obrigado pela preferência; voltem sempre.
O cartunista norte-americano Charles Schulz, que morreu no último domingo aos 77 anos, é um exemplo de vencedor segundo os critérios do mercado. Os personagens de Peanuts (ou a Turma do Snoopy, como ficou conhecida no Brasil) vendem como água há décadas. A partir de uma singela tira de quadrinhos, surgiram desenhos animados e toda uma série de produtos com a marca Snoopy, comercializados em escala mundial: de sabonetes a lancheiras, de pijamas a bolachas, de jogos eletrônicos a escovas de dentes. A onipresença do capital levou Peanuts aos quadrantes do planeta. Mesmo sem sair dos limites de um bairro de classe média dos EUA, com seus intermináveis gramados e suas casas sem muros, a turminha foi ‘‘globalizada’’, para usar uma palavra já gasta e ridícula.
A despeito do sucesso comercial, o personagem central de Peanuts era um menino que todos consideravam perdedor: Charlie Brown. Cabeçudo, depressivo, grosso no beisebol, incapaz de arranjar namorada, meio careca, frequentemente enganado por Snoopy (por um cachorro!), apelidado de Minduim (Peanuts), medíocre na escola, Charlie Brown tornava-se ainda mais patético por sua obstinação. Ele acreditava em chegar lá. Sonhava em ser campeão de beisebol, sonhava em namorar a garota mais bela do bairro (o único problema é que ela tem dez anos a mais que ele), sonhava em ostentar uma vasta cabeleira para que seu pai barbeiro pudesse apará-la, sonhava em adestrar seu cão, sonhava em tirar boas notas. E tudo dava sempre em nada.
Acompanhado pelo baixinho Linus, que por sua vez não largava de um cobertor, Charlie Brown fazia planos. O personagem se esforçava para atender aos padrões de sucesso exigidos pela sociedade norte-americana do pós-guerra, mas sua índole melancólica não lhe permitia chegar ao topo. Onde a malícia nem a esperteza necessárias para ser um ‘‘winner’’? Cadê a ambição, garoto?, perguntávamos.
A triste resposta: Charlie Brown jamais conseguiria tornar-se um homem (um garoto) de ação. Sua trajetória rumo ao sucesso foi barrada por uma hipersensibilidade de fundo moral; por considerações filosóficas que o faziam perder tempo e espaço; por uma preocupação com a linearidade da vida; enfim, por uma ética. Ele pensava quando deveria agir, agia quando deveria pensar, e em consequência perdia no beisebol, perdia a namorada, perdia as boas notas, perdia o rumo; mas ganhava em autenticidade, em simpatia e sobretudo em caráter. Eis a vitória de Minduim. ‘‘Que puxa!’’, diria ele, na dublagem brasileira.
A psicologia do fracasso é uma caudalosa fonte para a criação artística. Estranhamente, admiramos a inaptidão de Charlie Brown para a vida. Algo parecido acontece com os eternos derrotados de Woody Allen no cinema. E, guardadas as proporções, a literatura universal fornece inúmeros exemplos de derrotas transformadas em vitórias: de Tolstói a Dickens, de Camus a Guimarães Rosa, de Drummond a Tchekhov.
Na era da comunicação de massa, Charlie Schulz aplicou o tema do fracasso à linguagem visual das histórias em quadrinhos e dos desenhos animados, sem recair em maniqueísmos e fórmulas fáceis. Ao contrário, ele teve o mérito de preferir o caminho mais complicado: na terra dos vencedores, descreveu as eternas aventuras de um derrotado.
Não foi por acaso que Charles Schulz escolheu um xará para seu mais interessante personagem. Diversas vezes, em entrevistas, Schulz admitiu a identificação com o menino cabeçudo e inepto. Quem sabe, Schulz tenha conhecido também alguma personagem Lucy na infância. Charlie Brown vivia acossado por Lucy, uma garotinha chata e realista, cujo divertimento predileto era fazer pouco dos planos do colega. Lucy era implacável e maldosa; Minduim, a vítima perfeita de qualquer realismo. O cão Snoopy, maluco que só ele, representava as aventuras do inconsciente. Quando ninguém estava olhando, o animal de estimação transformava-se em Barão Vermelho e pilotava sua casinha de cachorro pelos céus da insanidade. Os delírios de Snoopy e o realismo de Lucy eram as duas pontas da corda bamba em que se equilibrava Charlie Brown. Ele caía sempre; não havia rede para amortecer a queda. Aparentemente indestrutível, Charlie Brown voltava à corda bamba. Na tira ou no desenho seguinte.
Não é à toa que Snoopy fez mais sucesso que Charlie Brown nos inúmeros produtos vendidos mundialmente com a marca Peanuts. Para o mercado, sempre foi mais simples comercializar a imagem agradável de Snoopy, um cachorro gozado e lelé da cuca, do que explicar a sutileza e a complicação psicológica de Charlie Brown. Para o consumo das prateleiras, vale mais Snoopy, em seus delírios que dispensam angústias existenciais.
Mas o outro Charlie, que morreu no domingo, sabia que os derrotados unidos jamais serão vencidos. Por uma cláusula contratual, o cartunista determinou que ninguém mais poderá dar continuidade à série Peanuts. Só o criador tinha a chave da criatura. Isso explica o uso do verbo passado neste texto: Charlie Brown morreu junto com Charles Schulz.O cartunista Charles Schulz morreu no último domingo e com ele o personagem
que viveu entre a derrota e a esperança
France PresseCharles Schulz e os personagens de ‘‘Peanuts’’ ou ‘‘Turma do Snoopy’’, como foi chamada no BrasilReproduçãoCharlie Brown: um garoto que se esforçava para atender aos padrões do sucessoReproduçãoSnoopy: um cachorro lelé da cuca, eterno parceiro de Charlie Brown

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