Adeus às cores
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 07 de fevereiro de 2006
Célia Musilli<br> Reportagem Local 
Quando Aldemir Martins nasceu em Ingazeiras, no Ceará, em 1922, filho de Raimunda, uma índia bugre do Quixeramobim, e de Miguel de Souza Martins, funcionário da rede ferroviária, ninguém supunha o destino encantado daquele menino. O gosto pelo desenho e a pintura foi se desenvolvendo ao longo da vida até redundar numa criação explosiva, incessante, que o transformou num dos grandes nomes da arte moderna brasileira. No ano passado, vi no Masp uma retrospectiva de suas obras produzidas ao longo de seis décadas. Uma variação impressionante de técnicas, mas o desenho é a sua marca registrada, seu grande trunfo. Impactante a série de cenas nordestinas feitas a bico de pena. Cangaceiros líricos reproduzidos como casais enamorados à luz da lua, à beira dos cactos, ressurgindo da tragédia para atingir a poesia. Ah, e os galos feitos pelo artista, rabos traçados como renda de bilro, dentro da melhor tradição cearense. Vi ainda as gravuras e as grandes telas a óleo ou em acrílica. Grandes num sentido amplo, não de tamanho, mas de exuberância, qualidade, precisão.
Dele queria ter os gatos vibrantes, retratados com seus olhos luminosos e coloridíssimos. Nada de pelagem preta ou branca. Os gatos de Aldemir são vermelhos, amarelos, azuis, verdes. Quem me dera ter um de cada cor, os trataria a pão-de-ló, teriam almofadas de seda, leite e água fresca, como gostam.
Eu desconfio que não apenas as pessoas ficaram tristes com a morte do artista. Acho que as aves, peixes, caranguejos e os gatos, que ele retratou à exaustão, também sentem a perda do mestre, que os alçou a uma nova condição, transpondo-os do reino da bicharada para o território da arte de maneira esfuziante.
Aldemir Martins, repito, era um gigante do desenho. Em 1955, jovem ainda, foi premiado nesta categoria na III Bienal de São Paulo. No ano seguinte, voou ainda mais alto, faturou o prêmio de Melhor Desenhista na XXVIII Bienal de Veneza. Foi o primeiro latino-americano a receber o troféu, o que não é pouca coisa. Ele ainda ilustrou obras clássicas da literatura brasileira como ''Os Sertões'', de Euclides da Cunha, e ''Vidas Secas'', de Graciliano Ramos. Foi também aluno de gravura de Poty Lazzarotto, orgulho e benção do Paraná.
Aliás, quando penso em talentos como Poty Lazzarotto e Aldemir Martins, fico com pena dos vanguardistas pós-tudo com suas instalações de alfaces anêmicas e bolas de neon. Não, não se trata de preconceito e admito que há honrosas exceções, lúdicas e críticas. Mas quando me lembro que numa mostra de artes, há alguns anos, alguém ''instalou'' um urubu morto para o público sentir o cheiro, sinto náusea. Naúsea e piedade do animal. Dispenso a ''fruição'' deste tipo de obra. Prefiro os bichos vivíssimos de Aldemir, escandalosamente artísticos e belos.


