Quarta-feira, às 21 horas, silenciou-se definitivamente o piano romântico de José Newton Henrique, o Paganini, que durante décadas marcou as noites londrinenses. ‘‘O som do piano em Londrina nunca mais será o mesmo’’, afirma Adyr Sebastião Ferreira, presidente da seccional da OAB na cidade e grande amigo do músico.
O talento e o temperamento genioso fizeram do pianista uma pessoa rara, segundo os amigos. ‘‘Era um autodidata com grande poder de captar a característica de cada autor que tocava. Isto é extremamente raro e não se aprende em conservatório. É um dom’’, afirma Adyr Ferreira.
Os boêmios e amantes da música puderam apreciar este dom nos bares da cidade e não raro presenciar pequenas demonstrações do temperamento intempestivo. ‘‘Não precisava muito para o Paganini bater o piano e ir embora’’, lembra outro grande amigo, Gustavo Lessa Filho.
Para que isto não acontecesse, o público, por exemplo, não podia dançar enquanto ele tocava. ‘‘Paganini costumava dizer que a música de piano era para ser ouvida e não dançada’’, conta Gustavo Lessa Filho. O gênio difícil não impediu que o pianista fizesse muitos amigos durante sua vida. ‘‘Era irascível, ser amigo dele era muito difícil, mas era uma grande alma, generoso e muito amigo de seus amigos’’, lembra Gustavo.
O talento musical fez com que Paganini tocasse com vários cantores da música popular brasileira: Angela Maria, Benito de Paula, Cauby Peixoto, Maysa, Marlene. Filho adotivo de um funcionário público e uma cozinheira, que já tinham três filhos, começou a estudar piano aos 10 anos em João Pessoa (PB) por imposição da mãe, que lhe arranjou uma professora particular.
Ele não gostava, mas tinha uma facilidade muito grande para aprender. Tanto que seu curso durou apenas noves meses. Depois a professora falou que ele não precisava mais de curso. Aos 14 anos começou a tocar como amador na Rádio Tabajara, na Paraíba, onde recebeu o apelido por ser considerado parecido com o violinista italiano do século 19, Nicolló Paganini.
O espírito cigano levou o paraibano a embarcar em um navio da linha Rio-Pará, como pianista. Não parou mais de viajar. Natal, Fortaleza, Recife. Até chegar a Londrina em 1958 para tocar na Orquestra Pan-Americana. Não ficou muito tempo. Foi para São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba. Até voltar definitivamente em 1967.
Casou-se com Aurélia e teve quatro filhos. Sua vida em Londrina foi dedicada ao piano. ‘‘Ele era um amante da música. Tocava mesmo que não pagassem’’, lembra Gustavo Lessa Filho. Virava a noite tocando e algumas vezes emendava noite, dia e noite. Seu talento e carisma fizeram com que fosse muito admirado pelos músicos de Londrina.
Adyr Ferreira chegou a fazer um tango para Paganini, ‘‘O Velho Pirata’’, que diz: ‘‘Tiveste todos os amigos
que quiseste ter,/e os perdia quando as teclas/se calavam em ti./
Mas te restava, amando muito a tua solidão,/
sempre um piano a te ouvir e compreender!’’
‘‘Ele viveu intensamente. Foi uma pessoa total’’, afirma Adyr. A vida de artista boêmio, de pessoa que abraçava tudo com voracidade acabou por fazê-lo envelhecer rapidamente e adoecer.
Numa tarde de setembro em 1990 Paganini estava na casa de Adyr Ferreira tocando piano e conversando quando sentiu-se mal. ‘‘Depois disto ele não tocou mais’’, afirma Adyr. ‘‘Foi o começo de sua morte.’’ Paganini sofria de polineuriti, doença que atinge os nervos. Nos últimos três anos ficou na cama e era assistido pelos amigos que nunca se afastaram dele. Na quarta-feira, às 21 horas, aos 72 anos, chegou ao fim de sua estrada.Arquivo FolhaTalentoso e de temperamento difícil, Paganini comandou durante décadas as noites em Londrina. Abaixo, ele aparece junto com outros músicos, ao lado do microfone, em foto de 1961Érika Pelegrino

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