A escritora Adélia Prado completa hoje 70 anos. Escrever sobre ela é um desafio. Dona de linguagem original, ela aproveita bem os regionalismos de Minas e faz das conversas que ouviu em Divinópolis, onde nasceu em 1935, a costura cheia de graça dos seus textos onde encontramos trechos que parecem fazer parte da história de nossas mães e tias. Sua literatura familiar e íntima está entre as melhores do Brasil.
Sempre considero um risco desenhar traços biográficos, ainda que seja para texto rápido. Os dados históricos, os locais, as datas são coisas difíceis de manipular sem cair no lugar comum ou na mesmice. É preciso temperar essas informações ''viajando na língua'' para que adquiram o sabor que representa o avesso das resenhas enfadonhas. Usar formalismo excessivo, no caso de Adélia Prado, seria um pecado tão grave quanto os ''sete capitais'' que os católicos mineiros respeitam fazendo penitência. Rebuscamento vamos deixar aos especialistas, erudição aos críticos. Tomamos o caminho do texto telegráfico. O raio X de Adélia é sua própria obra que merece o espaço maior, a fatia mais generosa do bolo.
Ela teve uma vida pacata em cidade do interior. Ao perder a mãe, aos 15 anos, detonou seu processo poético. Casou, teve filhos, seguiu escrevendo. Em 1972, a perda do pai dispara outro processo criativo e ela inaugura, enfim, o estilo que marcaria sua literatura ou sua ''fala''. Em 1973, formada em Filosofia, tomou coragem e enviou seus textos para o escritor Affonso Romano de Sant'Anna que, por sua vez, os repassou a Carlos Drummond de Andrade. Começava, assim, a cumprir o destino de escritora. Drummond a recomendou a Pedro Paulo de Sena Madureira, da editora Imago que, em 1976, publicou seu primeiro livro ''Adélia''. Drummond ainda faria uma crítica no Jornal do Brasil considerando seus versos ''fenomenais''. Precisava mais? Daí para a frente foi livro atrás de livro, ao todo, seis de poesia, seis de prosa, além das cinco antologias. Poemas e contos de uma grandeza que atravessa os sentidos. Para não ficar buscando palavras, recorro aos próprios textos da autora para arrematar o ''flash'' sobre a figura luminosa, meio nossa mãe, meio nossa tia, inteiramente poeta.

Depoimento
‘‘Moça feita, li Drummond a primeira vez em prosa. Muitos anos mais tarde, Guimarães Rosa, Clarice. Esta é a minha turma, pensei. Gostam do que eu gosto. Minha felicidade foi imensa. Continuava a escrever, mas enfadara-me do meu próprio tom, haurido de fontes que não a minha. Até que um dia, propriamente após a morte do meu pai, começo a escrever torrencialmente e percebo uma fala minha, diversa da dos autores que amava. É isto, é a minha fala.’’ (Adélia Prado)

FRASES
‘‘Às vezes o que se nomeia gratidão é uma forma de amarra.’’
‘Bajulo Deus, esta é verdade, tenho o rabo preso com Ele, o que me impede de voar.’
(Trechos de ‘Quero Minha Mãe’)
‘‘Tenho muitas saudade de quando não existia essa amolação de cigarro dar câncer, nem de mulher ser magra. A gente tinha mais tempo para o que precisa, não é mesmo? Será que faz mal mesmo? Colesterol, depois de muito barulho, estão falando que já tem do bom.’’
(Trecho de ‘Os Afrodisíacos’)

BIBLIOGRAFIA
Confira os livros de Adélia Prado
Poesia
- Bagagem (1976)
- O Coração Disparado (1978)
- Terra de Santa Cruz (1981)
- O Pelicano (1987)
- A Faca no Peito (1999)

Prosa
- Solte os Cachorros (1979)
- Cacos Para um Vitral (1980)
- Os Componentes da Banda (1984)
- O Homem da Mão Seca (1994)
- Manuscritos de Felipa (1999)
- Filandras (2001)

Antologias
- Mulheres & Mulheres (1978)
- Palavra de Mulher (1979)
- Cantos Mineiros (1984)
- Poesia Reunida (1991), com Bagagem, O Coração Disparado, Terra de Santa Cruz, O Pelicano, e A Faca no Peito
- Antologia de Poesia Brasileira (1994)
- Prosa reunida (1999)

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