Adélia Prado dá o tom
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terça-feira, 15 de agosto de 2000
Lucinéia Nunes Agência Estado 
Mas ninguém escapará à sedução da minha paciência, escreveu a poetisa mineira Adélia Prado. Pois também será difícil escapar à sedução de seu primeiro CD, O Tom de Adélia Prado, no qual dá voz à seleção de poemas do livro Oráculos de Maio (1999, Siciliano). Uma produção do selo Karmim, o disco foi lançado com recital da escritora na sexta-feira, no Teatro Sesiminas, em Belo Horizonte. Tomara que as pessoas, ao ouvirem o CD, descubram que coisa boa é fazer poesia, diz.
Apesar de ter tido experiências com leituras de textos, durante estes 25 anos de carreira, Adélia havia feito apenas uma gravação em fita para a série O Escritor por Ele Mesmo, do Instituto Moreira Salles. A gravação do CD foi realizada em fevereiro, no Estúdio Bemol (BH). O resultado, segundo a própria autora, é uma feliz unidade entre o texto e a música composta, referindo-se a trilha sonora assinada pelo compositor e flautista Mauro Rodrigues.
Idealizado por Carminha Guerra e realizado com os benefícios da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, o CD comemora os 10 anos da Karmim. No ano passado buscava um encontro mais próximo de Deus e comigo, conta Carminha. Foi nesse momento que o texto da Adélia entrou em minha vida de maneira profunda, oferecendo-me respostas e levando-me ao êxtase. Para ela, a música e a poesia representam o lado feminino de Deus. Ainda não conhecia Adélia mas foi uma surpresa descobrir que era seu sonho gravar os poemas.
Primeiramente foi feita a gravação dos poemas em estúdio. Para compor a trilha sonora, Rodrigues ouviu a leitura por diversas vezes e percebeu que o tom da voz de Adélia é em torno da nota sol com variações em sol menor. Essa foi a referência para trabalhar a paisagem musical, diz. Ela também deu indicações de timbres e instrumentos que poderiam ser usados como o oboé e o violoncelo. Restou-me resgatar a função da música como uma ligação entre o céu e o terra, que a poesia da Adélia faz, afirma Rodrigues, que convidou Fernando Araújo (violão), Firmino Cavazza (violoncelo) e Carlos Ernest (oboé) para participarem da trilha.
Mineira de Divinópolis, mãe de cinco filhos, avó de seis netos e autora de 11 livros publicados, Adélia é repleta de espontaneidade, seja em seu jeito, suas palavras ou em sua poesia. A confissão religiosa que transparece no registro de toda a sua obra também está explícita em O Tom de Adélia Prado. Mas desta vez, na voz da intérprete, no desvelar de sua alma. Para mim, as experiências religiosa e poética são a mesma coisa, não há como abstrair da experiência poética o seu caráter transcendental e religioso.
Você poderia ler poesia dentro da igreja, como se lê Salmos e vice-versa; Salmos podem ser lido num recital de poesias que funciona perfeitamente, tal a natureza poética e religiosa de ambos, afirma. Segundo a poetisa, a razão é o campo do raciocínio, da lógica, e a arte não é fruto disso. Poesia a gente não manda nela, vem na hora que quer, sopra onde quer, diz. A inspiração é fundamental para a criação.
Composto por 56 poemas, divididos em seis partes (Romaria, Quatro Poemas no Divã, Pousada, Cristais, Oráculos de Maio e Neopelicano), o disco também exprime a condição feminina e o erotismo pelos olhos de Adélia. Depois das conquistas de natureza social, a mulher sofre pela ausência do exercício que lhe é próprio e pela perda de valores essencias, afirma. Já o erotismo é vitalidade e não tem nada mais vivo do que a poesia.


