Curitiba – O escritor albanês Ismail Kadaré é radical, extremista e cruel até no destino que traça para o personagem central do livro ‘‘Abril Despedaçado’’. No romance, o jovem montanhês Gjork Bericha cumpre à risca o código Kanun, um conjunto de rigorosas leis não escritas que passa de geração em geração. Os estratagemas que ele utiliza para cumprir esse código e a sua reflexão sobre ele, durante a curta trajetória que separa o tempo em que ele cumpre a tradição e se transforma em vítima dela, é tema central do livro.
Ao adaptar o romance de Kadaré, o diretor Walter Salles Júnior optou por colocar uma lente de aumento em coisas aparentemente superficiais no romance original, o que confere ao filme uma intensidade menor. Mesmo que o roteiro tenha servido apenas de inspiração, supervalorizar situações que o autor da obra original aparentemente ignora, ou trata com menos destreza, é um caminho perigoso. No livro, Gjork não conhece o amor além de seus pensamentos. No filme, Tonho (Rodrigo Santoro) é quase que impelido a subverter a tradição. Seria para tornar a história mais digerível?
Ao encerrar o livro, a sensação é de ter consumido uma obra completa. Ao terminar o filme, resta um gosto de pouco na saliva. E mesmo que a comparação entre uma obra e outra não seja feita, já que são linguagens distintas, as imagens impecáveis do longa não convencem em alguns pontos, não fecham em círculos, nao se complementam. Essa ausência se dá tanto pela caracterização desencontrada dos personagens, quanto pela escolha de um roteiro (e aí, a comparação com o original é inevitável) que deixa frestas. Mas a deixa não tira o mérito do filme, mais um belo e tecnicamente primoroso trabalho do diretor. (K.M.)

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